USP, COTAS E “FERNANDISSES”

Com toda a repercussão que teve o vídeo gravado por um aluno da USP numa aula de microeconomia, começaram a pipocar inúmeras falácias e contradições na internet. Um caso chamou a atenção…

Nunca mais achei que iria falar de Fernando Holiday, ou Stephen, para os íntimos conhecedores de cinema (risos), mas o rapaz novamente voltou a ligar sua web can e dissertar a favor da Casa Grande. (veja o vídeo). Rebatendo suas criticas e colocando seu ponto de vista, o cantor Tico Santa Cruz também gravou um vídeo (aqui) que fez um certo sucesso e Tico foi muito elogiado, tanto pelos ativistas do Movimento negro como as pessoas em geral. Porém, no seu ato de livre expressão da ignorância, Fernando gravou uma tréplica (aqui/You Tube) e questionou alguns pontos levantados por Tico, todos ridículos, ridículos ao ponto de não se sustentarem. Os argumentos de Fernando foram descascados ponto a ponto – indiretamente – pelo colunista do Estadão, Ricardo Chapola (texto aqui), texto esse que eu gostaria de destacar uma frase que tecnicamente resume todo esse mimimi do garoto: “Eu sou pobre, sou negro, vim da periferia, estudei minha vida toda em escola pública. E mesmo assim passei sem cotas na universidade federal de São Paulo”, disse o jovem, dando o exemplo de que o País não precisa de cotas. Amigo: parabéns! Mas o País não é você. – 

Tá, mas e porque todo esse rebu agora no blog? Bom, primeiramente gostaria de deixar claro que todo ser sensato gera automaticamente um desafeto visto tamanha ignorância de um negro tão egoísta que acredita que “se eu consegui, todo mundo consegue”, afinal, nessa grande lógica meritocrática liberal, somos todos “iguais”. Isso me levou a entrar em um de seus vídeos e, como sempre faço, puxar uma discussão para saber se o rapaz me respondia, provavelmente por covardia ele novamente abdicou de discutir com quem discordava de sua ideia e ficou apenas agradecendo o resto da Elite Branca que aplaudia. Stephen fez um bom serviço, Calvin ficou feliz.

Publicada minha opinião, tive uma resposta deveras positiva, visto que há muito tempo não tínhamos um debate sobre cotas tão rico em retórica e argumentos, dois rapazes me responderam e eu gostaria de deixar abaixo nossa conversa na íntegra.. Espero que gostem:

(os trechos em negrito são falas minhas, os em itálico são as respostas)

enquanto você achar que por ser exceção à regra, Fernando Holiday, todos tem a mesma capacidade, você não vai entender que MERITOCRACIA NÃO FUNCIONA NO BRASIL!

Meritocracia, não é só trabalhar igual um camelo. Meritocracia, é ser capaz de produzir o que o mercado pede. Por isso, que especialista em encontrar lençol freático, não teria horário na agenda aqui em São Paulo, enquanto o melhor reparador de máquinas de escrever vai sofrer pra encontrar serviço.

E, para que as pessoas consigam trabalhar com o que quiser, sem ter dificuldades, o ESTADO precisa parar de criar burocracias e impostos, e deixar de se intrometer TANTO na vida das pessoas. Aí, qualquer um, independente de credo, gênero ou etnia, poderá se dedicar ao que quiser sem ser roubado 5 meses pelo Estado, para ficar só com os outros meses do próprio trabalho.

Bela utopia. Só esqueceu de colocar algumas variantes: racismo iminente (dentre outros preconceitos), má distribuição de renda (que vem desde a “libertação dos escravos”) e apelo à oportunidade (pq sair da favela onde, mesmo não tendo uma vida perfeita, sou muito menos discriminado, não sou assaltado e o Estado já é mínimo… Pra quê sair?). O mau do liberalismo é que ele em sua construção não levou em conta os fatores sociais. Ou seja, pra ele tanto faz quem está no poder, desde que alimente esse Deus Mercado em detrimento de outro cidadão.

Não é utopia, não. Meus bisavós chegaram aqui fugindo da Hungria na primeira guerra, sem absolutamente NADA, e nem sabendo falar português! Tiveram que ralar em trabalho análogo a escravo na roça, pra depois vir na sorte pra São Paulo. Quem não tem/teve muitas oportunidades, não é por causa da quantidade da melanina…é porque é uma pessoa CHATA PRA CARALHO, daqueles que reclamam ser vítima do sistema e do mundo. Infelizmente, em um país que a maioria é pardo, a esquerda soube dobrar e doutrinar MUITA gente pra acreditar nesse engodo populista para chegar ao poder. 

Deu até um pouco de pena agora da história de vida de seus avós cara, e ao mesmo tempo parabenizo eles por suas vitórias, porém não farei isso, até pq estarei concordando com um ideal distorcido do que são padrões de classe. Por mais que sejam pobres, brancos num país racista possuem mais chances de subir na vida. Quando se criaram algumas políticas públicas eles foram beneficiados. Já tadinho dos meus avós Vagabundos sanguessugas do governo, né? Nunca se esforçaram pra ter uma vida melhor, sempre ralando horas e horas por dia pra dar sustento e amor pra seus filhos e serem recusados em grandes empregos por mais inteligentes que fossem. Isso pq não falei dos meus bisavós que viviam num regime semi-escravo em plantação de cana no interior, cujos pais vieram traficados da África por homens brancos e forçados a trabalhar para não morrer. Mas que nada, né. É vitmismo… Como assim nós não nos esforçamos, né? Tivemos as mesmas condições de subir na vida igual a um casal de húngaros, pode crer! Somos chatos pra Caralho quando pedimos a manutenção de uma política pública que visa dar visibilidade e estudo para jovens negrxs no br… Somos populistas, como se populismo fosse ruim (você fala como se fosse). VIVA À MERITOCRACIA E SEU DIREITO DESIGUAL DE ALCANÇAR O SUCESSO ÀS CUSTAS DOS MAIS FRACOS!

Tampouco esse assistencialismo vazio, tratando sintomas e não causas. Dá a Bolsa Família com a condição do filho estar na escola, porém recebendo educação de péssimas qualidade formando futuros novos beneficiados por bolsa. Cria o Prouni, mas não melhora o Ensino Médio, fazendo alunos incapacitados nas faculdades e formando péssimos profissionais… Só pra exemplificar. Peguem um branco e um negro que tem boas condições, ambos tem acesso à mesma escola. Será a cor dele que definirá quem vai passar ou não numa faculdade? Não. Acho que cotas são medidas paliativas, mas se fosse para escolher, eu defenderia APENAS as cotas sociais. O que define a oportunidade de entrar ou não em uma faculdade é o acesso à boa educação fundamental e média. E a não capacidade econômica para ter acesso a esse tipo de educação (já que o governo não investe n educação pública) tem a ver como já disse com ser pobre e não com ser negro ou branco. O negro pobre não tem que ter privilégios a mais do que o branco pobre.

não vejo pq um programa que custa uma mixaria pro Estado -que tem sim sérios problemas de gestão – seja ruim. lembrando que por mais que o governo federal seja o responsável por indicar o ministro da educação, os estados também tem sua responsabilidade, aqui em São Paulo, por exemplo, Alckimin sucateou as escolas públicas e milhares de professores estão de greve e fazendo protestos. tá sabendo?

cara. enquanto vc achar que o “privilégio” é do preto pobre. vc não vai entender… pegue um negro e um branco de classe média que tiveram o mesmo ensino e passaram na universidade, coloque-os no mercado de trabalho e me responda quem vai ter mais chance de se dar bem na vida? (números estatísticos, não vem com meia dúzia de casos de gente que deu certo).

é por isso que eu digo. os argumentos – tanto de vocês como os do fernando – não se sustentam. o liberalismo nunca pensou no social e os neoliberais culpam essa nossa afirmação como se a situação do governo atual fosse responsável pela não perpetuação da meritocracia. dó.

Flávio, primeiro que neoliberalismo não existe, cite um autor dessa teoria. Segundo, o liberalismo pensa no social sim (basta consultar no índice Heritage de liberdade econômica), só não acredita no populismo. Terceiro, o Brasil não é e nunca foi liberal, basta observar os 40% de participação estatal no nosso PIB. Quarto, se existe cota para negro, também deveria ter uma para judeu. O Judeu foi escravizado em vários períodos da história e quase foi exterminado no século passado. Quinto, defina negro e branco. Qual a base científica para dar cota para negro? Quantidade de melanina na pele?

Fábio. Na geografia coloca se o termo “neoliberalismo”, pois é a época pós guerra fria e liderada pela nova ordem mundial. Segundo que essa história com os judeus realmente é trágica. Judeus sempre se ferraram na vida (até o séc xx) e merecem uma atenção maior. Sua lógica só não procede num sentido: o fato de ñ existirem cotas para judeus é desculpa pra não existirem para negros? Racismo e antissemitismo são crimes inafiançáveis no Br. Mas daí temos um fator: por mais sofrida que foi a história dos judeus (principalmente com os pogroms e o nazismo), os judeus ainda são um povo que possui várias etnias (afinal, judaísmo é antes de mais nada, uma religião). Estamos aqui discutindo cotas raciais no Brasil ( B R A S I L), não houve esse horror com os judeus aqui, houve com os negros e indígenas. Não distorça os fatos. É importante pensar dessa forma? É, mas a realidade do Brasil não é de escravidão e racismo contra judeus. Você pede pra definir negro e branco. Simples, além da resposta biológica (quantidade de melanina), da geográfica-social (etnia descendente dos hominídeos viventes nos continentes africano e na Arábia (oriente médio)) quer mais o quê? Sujeito que sofre diariamente preconceito por acharem que é bandido? Gente que ocupa 70% das favelas brasileiras (aprox)? 65% da população brasileira? Cuja outra grande parte possui o dobro de oportunidades…

Flávio, professores de geografia utilizam do termo neoliberalismo para praticar doutrinas marxistas. Se não há autor, não cabe o seu uso. Judaísmo é uma miscelânea de cultura, religião e etnia. Esse conceito que judeu é só religião é apenas para deslegitimar o Estado de Israel. A tradição não é de racismo contra judeus no Brasil? A Arlene Clemesha, antissemita convicta, continua dando aula na USP. E ai? Vamos esquecer os judeus, não é justo os nordestinos entrarem na cota também? Além do mais, o Brasil é um país miscigenado. Qualquer um no Brasil pode requerer cota! Muito mais prático, justo e coerente a cota pela faixa de renda. Se há mais negro pobre, eles vão entrar da mesma forma na faculdade. Sobre o índice Heritage, não li nenhum comentário.

PARE com esse sofismo de Marxismo cultural. assim como Sócrates dizia, uma exceção a regra não nos diz que existam várias verdades. então se há meia dúzia de casos de negros hiper bem sucedidos que saíram lá de baixo não anula o fato da grande maioria ser escorraçada pela sociedade. assim como se há meia dúzia de casos de antissemitismo no Brasil, não coloca os judeus como mais ou menos importantes e “oprimidos” por assim dizer. existe muito mais judeu racista hodiernamente do que judeu que sofre no Brasil, até porque eles, como bons capitalistas que são, souberam driblar as adversidades e se instalar no sistema… já s negros… vc me perguntou sobre o índice de liberdade econômica, bom, minha área é cinema, eu ñ sou economista, mas já li alguma coisa e posso afirmar que no brasil houve sim um período de prostração neoliberal onde tentaram rumar o país para subir nesse índice. sem sucesso. por que? segundo o que li, pois as dificuldades socioculturais aqui são imensas. “ah, mas nos EUA o índice é enorme e teve racismo pior que no BR, mimimimi”. sim, nos eua há uma alta liberdade econômica, mas também o racismo é muito mais acentuado, a porcentagem de desigualdade lá é uma das maiores do mundo (isso eu lembro a fonte, dei uma lida naquele livro “o capital no séc xxi) além de a única razão para os EUA não quebrarem de vez é que ele são a maior potência política e militar do mundo, ou seja, ninguém  tem coragem de ir lá cobrar dos estados unidos. caso não tenha percebido, eu defendo sim as cotas por renda, justamente por acreditar que há uma enorme desigualdade, mas o que difere meu raciocínio do seu preconceito é que eu consigo também ver que no momento que eu crio uma cota racial, eu insiro negros num local que antes não era deles, essas pessoas vão estudar, se formar, trabalhar talvez em empregos que possam melhorar cada vez mais a vida dos mesmos e num futuro distante essas cotas vão se extinguir. liberal, como sempre é muito imediatista, vocês não levam em conta que as cotas não fizeram 10 anos e para alguém se instalar de vez no mercado de trabalho leva de 15 a 20. eu digo, esperemos 40 anos e veremos como estará a vida desses hoje cotistas, se vai melhorar ou não. temos que parar com esse imediatismo, não é assim que funciona. mas você nunca vai entender… a retórica não existe numa dicotomia construída. eu e você não vamos mudar de opinião, porém se o Estado acha uma boa tentar, confiemos nele, está dando certo com o bolsa família, porque não daria com as cotas? ah, outro ponto q eu esqueci: eu sei sim que vem do bom senso (como o do Fernando) de que se uma pessoa acha que não precisa, apenas não pede cotas. simples assim.

(depois disso o rapaz não quis mais continuar a discussão)

Pois bem, percebi que essa dicotomia atrapalha um pouco o debate, porém é fato que quando se debate políticas públicas e de inclusão não podemos nos pautar num pensamento que defende a ideia de deixar correr tudo livre, leve e solto. É preciso decência e o mínimo de coerência para entender que É uma falácia que desconsidera o fato de que, quando nos referimos às vagas em universidades, estamos falando de algo que é público, mas que historicamente tem sido apropriado por critérios raciais e de renda. Isso é antirrepublicano, e o mais engraçado é que no fundo também é um discurso antiliberal, porque defende a perpetuação de privilégios.

Já chamei Fernando outrora para discutir sobre o assunto, mas ele está muito ocupado estudando e tratando do “impítima” e eu também (tirando a parte do impeachment, claro, tenho mais o que fazer).

a-fantastica-meritocracia.html

Fica aqui minha análise sobre o caso, minha conclusão só será tomada no momento que o Stephen vier falar comigo sem o Calvin atrás (risos).

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