O QUE OS PROFESSORES PENSAM SOBRE “ASSÉDIO IDEOLÓGICO”?

Na mídia desde que ascendeu o anticomunismo no Brasil, as pessoas vêm falando sobre o famigerado “assédio ideológico nas escolas”, porém o que menos se comenta sobre isso é como os professores veem essa proposta do deputado Rogério Marinho (PSDB-RN).

O PL 1411/15 é uma das prioridades em Câmaras espalhadas pelo Brasil além da casa de Cunha, uma das razões que leva à preocupação é que, com uma forte onda reacionária nesses últimos anos, esse projeto seja aprovado e comece a cercear os direitos dos professores de transmitir o conhecimento ao aluno. Todo ensino é política, “ensino neutro” não existe, “Escola Sem Partido” é uma mentira, uma prostração ideológica que na realidade tem medo de um suposto “marxismo cultural”.

Mas não vamos ficar na vontade. Entrevistei alguns professores de meu âmbito escolar (de várias épocas) e os perguntei sobre esse PL e suas visões sobre a situação do ensino. Vejam suas respostas.

A retórica do contato com a diversidade é usada por aqueles que pedem o fim do “doutrinamento político”, ao meu ver, exatamente para garantir o efeito oposto: a perpetuação e garantia de um pensamento homogêneo com vistas à manutenção de modelos conservadores.

Visto que não existe neutralidade possível e que as leis não existem em um mundo abstrato, mas em um mundo concreto com agentes, interesses e jogos de força específicos, cabe a pergunta: quais discursos serão considerados “ideológicos” e quais não serão? Ainda mais importante: quem terá o poder de determinar o que é “ideológico” e a quem ou a que serve esse discurso da necessidade de uma vigilância do discurso?

Se o objetivo fosse realmente a diversidade de modos de pensar, ao invés de vigiar para que cada professor tenha individualmente um discurso supostamente neutro ou plural, seria mais interessante garantir a diversidade do próprio corpo docente. Ao criar uma ferramenta de controle sobre os discursos dos educadores, essas propostas que dizem querer aumentar a diversidade de discursos terão, provavelmente, o efeito oposto (e que talvez seja seu real objetivo). Teremos um conjunto de professores que se dizem “neutros” e eliminaremos (segundo quais critérios?) os professores que destoam do coro. O resultado seria um grupo extremamente homogêneo de professores supostamente neutros, mas muito semelhantes entre si, uma vez que selecionados de acordo com um critério de “neutralidade” externo e determinado pelo mesmo conjunto de agentes.

Sou contra.”Prof. Caio Moretto (humanidades)

“Difícil, pois não dá pra desvincular a vida pessoal, o que acreditamos quando damos aulas. Pela ética, o professor deve ser imparcial, inclusive quando trabalho para um governo (no caso das escolas públicas) que possuem uma doutrinação ideológica que para muitas pessoas não é clara, não é explícita. Acho isso um completo absurdo, pois é extremamente contraditório. Faltam condições adequadas de trabalho, profissionais mais capacitados, melhores salários e ainda somos ameaçados de prisão.”Profª Simone Barbosa (química)

 

“Não faz sentido, nem vai para frente isso aí, assim como a redução da maioridade penal não vai pra frente. Por que não vai pra frente? Porque senão você tem que proibir os professores de trabalhar com jornais em sala, com notícias, não poderão mais tratar de um tema de filosofia obrigatório que é a Política.

Como faz? Dá só estética, ética e Descartes? Não tem como”.Profª Carol Souza (historia e filosofia)

 

“A priori, a forma como estão colocando o problema e falaciosa pois a própria legislação educacional já o proíbe. O professor e obrigado a respeitar as posições dos alunos.O professor deve apresentar diferentes posições sobre o tema e não vejo porque ele não se pressionar, mas não impor seu pensamento como o único. Com relação do projeto de lei, é preciso observar que embora ele fale em doutrinação, em suas justificativas só aparecem críticas ao marxismo. Assim, inicialmente, é preciso concluir que se as críticas não são infundadas, tudo para eles é marxismo. Bastou aparecer os termos burguesia, proletariado ou capitalismo, e os defensores do referido projeto são classifica como marxismo.

Desconsidere o são. Para eles, pedagogos como Paulo Freire são marxistas, o que é uma limitação brutal de compreensão do universo referencial dos seguidores de Marx.

 

Em segundo lugar, ao analisar seus textos, podemos concluir que para eles valores como Democracia Liberal não são uma doutrina, o que novamente demonstra uma dificuldade de entender que os valores da Democracia Liberal também são construídos como uma crítica do Absolutismo e, portanto também são doutrinárias. Para eles, há uma ciência que é a certa e que quando se refere as Ciências Humanas é aquela que se relaciona com a democracia liberal.

 

Eles não conseguem pensar uma democracia social, por isso, colocam que as ideias do PSDB são socialistas. Observe a perola “Acrescente-se aqui a recente série SOCIEDADE E HISTÓRIA DO BRASIL, em 12 volumes, publicada pelo Instituto Teotônio Vilela do Partido Social Democrático – do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso –, interpretando a história nacional em termos claramente socialistas.”

Sendo assim, acredito que o referido projeto não demonstra compreensão do processo educacional. Não sei se você se lembra, mas em minhas primeiras aulas, brincava pedindo para tomar cuidado comigo, pois era um animal em extinção! Sempre me posicionei como sendo influenciado por Marx, mas nunca deixei de apresentar outras formas de compreensão dos fenômenos sociais e entendo que essa deve ser a posição do professor.

Eles não conseguem perceber que há diferentes formas e métodos de se realizar um estudo científico e todas elas estão diretamente ligadas a uma doutrina. Por exemplo, no campo da história hoje, há uma hegemonia da escola dos Annales que não tem nada de marxista, embora empregue termos como burguesias, proletariado, capitalismo, etc.

Por último, acho que este projeto é inconstitucional, pois se choca frontalmente com a liberdade de expressão – o mais engraçado é que este é um dos princípios da Democracia Liberal que eles dizem defender -, liberdade de cátedra, entre outras coisas”Prof. Américo Vilela (historia)

“No dia 16 de agosto comemorou-se o dia filósofo, data apropriada para fazermos um balanço sobre o desenvolvimento do pensamento humano do século VI a.C até o presente século XXI. Pode parecer uma tarefa audaciosa, complexa, intensa, árdua… No entanto, receio que não teremos muitas novidades. A história da humanidade sempre esteve marcada por elites que querem dominar e um povo que luta para não ser dominada, a emancipação popular não ocorre sem o conhecimento, sem o pensamento, sem a reflexão, o debate… A partir dessa premissa, fica muito clara a intenção de projetos de lei que se multiplicam no nosso país com objetivo de cercear a liberdade de debates, e isso no espaço da educação, em suma, é o veto ao pensamento, ao questionamento.

Quando decidi que faria a graduação em Ciências Sociais, ouvi de uma senhora que era um curso perigoso, assim como Filosofia. Hoje compreendo que, para quem quer conservar privilégios, questionar é um ato de subversão. A reflexão crítica desenvolve a autonomia, e uma população autônoma não é interessante para as instituições sociais, Estado, igreja, família, Capital, etc… Dentro desse escopo projetos de lei que vetem o pensamento, estes sempre com o mote de doutrinação, ideologização… Visam à manutenção de que tudo permaneça como sempre, que as elites se mantenham, sobretudo que a população tenha medo da mudança. Como diria o sempre atual William Shakespeare: “Que época terrível esta, onde idiotas dirigem cegos.” – Profª Silvia Cintra (humanidades)

“A lei não define direito o que é assédio intelectual e isso é um problema. Discurso de ódio na sala de aula é assédio intelectual? Falar “vote em x” é? Explicar Marx é? Só de gerar essa dúvida, a lei já tem um problema sério, a gente já entendeu que o discurso é que “professores doutrinam alunos com ideologias” e isso deixa o negocio muito mais complicado. Porque também não define ideologia. Na verdade, esse debate é infinito. Falar “isso é ideologia e isso é conhecimento científico” ou “Isso é opinião e isso é verdade” é estratégia velha pra deslegitimar o outro. A própria noção de opor conhecimento científico à ideologia pode ser considerada ideológica. Tipo, eles não tem noção do que tão falando.” Prof. Rafael Baptistella (historia e humanidades)

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O Projeto ainda está em análise e será votado até junho de 2016, quando o próximo conselho para discutir os planos Nacionais, Municipais e Estaduais de Educação.

Esperamos que até lá caia a ficha da tremenda picaretagem que está acontecendo no nosso país e na nossa educação. Toda, repito, TODA educação parte de um princípio ideológico (veja o meme abaixo), é impossível ser “neutro” quando se vai ensinar, a escola não é uma bolha excluída de todo o resto da nossa vida e convívio é uma instituição que representa boa parte da formação social do aluno e esse necessita ter os melhores professores, dedicados e conscientes que a sala de aula é um lugar onde estão sendo formados cidadãos atuantes.

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