UMA ODE A IGNORÂNCIA: SOBRE GÊNERO E ORIENTAÇÃO SEXUAL

Não é de hoje que o pastor Silas Malafaia enfrenta com unhas e dentes as pautas LGBT. Por maldade, intolerância e falso moralismo, Malafaia insiste sempre que pode em utilizar falácias e desvios de indução para expor suas opiniões preconceituosas – utilize aqui “preconceito” na sua forma original (dicionário) – a respeito tanto de orientação sexual quanto de identidade de gênero (ou, como ele gosta de falar, para soar “forte”, “ideologia de gênero”). Já tratei uma vez no blog sobre identidade de gênero, quando fiz meu texto em resposta a Luana Basto, uma notória garota que se acha “A zoeira” em pessoa e, como não aceita ser refutada, adora bloquear aqueles que destroem seus argumentos. Não há nada demais em destruir argumentos, em “perder” o debate, pois justamente o debate serve para construirmos e aprimorarmos nossas ideias. Dentre muitos debates sobre gênero e sexualidade que já tive/participei, fui agregando conhecimento e desmistificando coisas que realmente eu achava um absurdo, mas não conseguia provar o contrário.

O problema é quando você utiliza do debate para passar uma mentira, para induzir um povo a reprimir o outro. Não há nada 100% certo dentro dos debates sobre gene e sexualidade e isso o pastor Silas quer negar. E o mais interessante, por ser famoso e conhecido ele consegue convencer que está correto.

Creio que como eu, Silas já tenha lido algo sobre a Lógica Erística, de Arthur Schopenhauer, onde ele descreve com detalhes “como ganhar um debate sem precisar ter a razão”, ou seja, utilizando falácias (“argumentuns“), distorcendo fatos para implantar uma pseudo-verdade sobre algum tema (no caso, identidade de gênero e orientação sexual).

Não cabe a mim fazer uma análise do ponto de vista biológico sobre o que Silas tenta passar em seu discurso, visto que nem eu nem ele temos base para isso, portanto, vou utilizar do ponto de vista moral, social e antropológico para tentar explicar que Silas utilizou a verdade para espalhar a mentira.

Desde que Silas sofreu uma surra moral do geneticista Eli Vieira, ele vêm em debates sobre o assunto repetindo o mesmo jargão: “O Doutor Francis Colins, diretor do Projeto Genoma Humano confirma que a homossexualidade (mentira, ele fala o “homossexualismo”, mas me dói o coração escrever isso) não é genética, portanto ela é um comportamento aprendido ou escolhido pelo ser humano”.

Mas afinal, o que o Dr. Colins disse sobre a homossexualidade?

O geneticista afirmou que depois de anos dentro da realização do Projeto Genoma, não foram encontrados resquícios de hereditariedade ou ordem cromossômica genética que indique um “gene-gay”. Colins não abriu mão da existência de  outros fatores determinantes sobre a homossexualidade – fatores intra uterinos -, ele apenas provou que ela não pertence ao sistema de hereditariedade. A visão do Dr. Colins não era dar um fim no assunto, era fechar ainda mais o cerco sobre teorias a respeito da origem homossexualidade, vindo assim a criar vários projetos, tanto aqui no Brasil como no exterior sobre o entendimento da orientação sexual humana agora excluindo os fatores hereditários. Essa base criou alguns projetos de faculdades particulares europeias que realizaram estudos ao longo de 2 anos sobre outras razões que gerassem a orientação sexual do indivíduo e se chegou a conclusão que: 1- Além da homossexualidade não ser genética, a heterossexualidade também não é. O que é dado como “natural” são os instintos humanos (animais) de perpetuação da espécie. Trocando em miúdos: Se houver uma catástrofe mundial e sobrarem na terra dois gays e duas lésbicas, eles não verão problema algum em transar em prol da perpetuação da espécie humana, seria quase inerente deles. 2 – Existem também dois fatores que interferem na genética humana, são eles os fatores epigeneticos e congênitos, sendo um fatores que dependem dos hormônios gerados pela mãe na gestação e outro fatores também gerados na gestação que podem ou não serem ativados, isso dependerá muito do ambiente em que o ser humano se encontra. Exemplo besta: só seria possível comprovar qual fator é exatamente se simulássemos um mundo sem os padrões morais que estão hoje na sociedade, assim, o ser humano poderia se expressar da forma com que veio ao mundo. Como isso não é possível, existem então as analises sociológicas e antropológicas sobre as diferentes orientações sexuais (hetero, bi e homo). Uma escala criada por Alfred Kisney mostra que existem diversos graus de expressão da sexualidade humana, esses, dentro do meu sistema hipotético estariam gritantes, porém existe uma sociedade em volta, com padrões morais, religiosos e opressores, que fará com que a expressão desse grau de orientação sexual seja mascarada e distorcida conforme o meio. Exemplo: o islã é uma das religiões que mais abomina a prática homossexual (tanto masculina quanto feminina), o Corão deixa claro que esse é um pecado mortal e, mais que outras religiões, o ser humano deverá ser morto no momento, para que Alá venha a se manifestar e julgá-lo no paraíso, ou seja, mesmo que a pessoa dentro dessa religião seja homossexual, ela terá que se adequar aos padrões exigidos coercivamente pela sociedade se quiser viver.

É aí que encontramos o primeiro desvio falacioso de Malafaia, ele prega um fato (não existe gene-gay) e junto com ele, um pseudo fato (a homossexualidade é aprendida ou imposta), excluindo toda essa pesquisa em torno do resultado do projeto do Dr. Collins, ou seja, o cientista resolve uma questão que era uma pedra no sapato da humanidade e beneficia as pesquisas para descobrir a origem da sexualidade humana e o pastor vai lá e distorce o ocorrido para discursar dizendo que a homossexualidade é aprendida ou imposta, uma ode a ignorância!

O que se vê dentro do projeto de pesquisa sobre a sexualidade humana é a diferenciação do homossexual (ou bi, ou hetero) do comportamento que esse vai ter e das práticas que vai realizar. É claro que um heterossexual não vai ter vontade de realizar práticas homossexuais e vice versa (o bi é outra história, esse, por ter uma orientação sexual que o possibilita se relacionar com os dois gêneros, não sentira nenhum desprazer caso seja um relacionamento consensual. Lembrando sempre que o bi não ESTÁ, ele É), porém caso as venha praticar, não é pela sua orientação sexual e sim por motivos socioculturais (e animais) de recessão ou dominação. Exemplo: se 10 estivadores praticarem um ato libidinoso com um heterossexual convicto isso não o tornará homossexual por mais que ele saia depois e diga que gostou, o que isso pode gerar são aversões a práticas sexuais e um desejo de exclusão da orientação sexual designada, ou seja, uma garota abusada na infância por um homem pode criar repulsa perante o sexo masculino e, como é da natureza dela em muitos casos querer praticar sexo, procurar alguma outra garota para realizar seu desejo, pois com homens ela “perdeu o tesão”. Portanto, suas práticas sexuais ao longo da vida não determinam quem você é. O biólogo Paulo Antonio Nascimento comenta em um de seus vídeo denominado “Homossexualidade, ponto final” um exemplo muito interessante da diferença prática vs orientação sexual: Quando na adolescência há um pico de formação de hormônios, o jovem sente-se na obrigação de liberar essa vontade de qualquer maneira que não seja a masturbação, em casos como escolas integrais e conventos, onde o individuo está “preso” com outros do mesmo sexo, esse pico de hormônios pode levar ele a ter o desejo de baixar essa vontade realizando algum ato sexual com outros do mesmo sexo (ato homossexual), mas isso é passageiro e em muitos casos não gera conflito psicológico, visto que esses atos são muitas vezes consensuais (em casos de colégios internos geralmente, em presídios o ato homossexual é dado muitas vezes como punição ou imposição de superioridade entre os presos), já na roça, por exemplo, quando você não tem ninguém para fazer o popular “troca-troca”, você simplesmente esgota essa vontade realizando o ato com animais (cabras, vacas, afins), com a única diferença que depois o animal não vai pedir para trocar (e de novo, isso não se remete a zoofilia, é um desejo de satisfação de prazer gerado por um pico hormonal em uma determinada fase do ser humano). o popular “Não tem tu, vai tu mesmo”.

Dentro da sociedade, e tentarei me referir sempre a sociedade ocidental, visto que ela é ditada muito ainda por morais judaico-cristãs, o ser humano também vai se expressar dependendo de seu meio. Quanto maior for o grau de machismo dentro do meio, mais difícil será a expressão pura e completa da sexualidade humana, e isso afetará homens e mulheres LGBT ou não e esse comportamento normalmente é passado de pai para filho, ou seja, o machismo vai se perpetuar via ideia de padronização da raça humana junto com o desejo de não haver mais fatores que distorçam e eu não me refiro a machismos mais subjetivos como vestir o filho de azul e a filha de rosa, ou boneca e carrinho, me refiro ao tratamento que é dado quando vai se ensinar a criança a viver na sociedade. Não basta você mostrar ao seu filho que a humanidade depende da procriação, é necessário uma imposição de heteronormatividade e o melhor meio de propagação dela é via machismo. Ensina-se os homens a serem “pegadores” e as mulheres a serem ao mesmo tempo submissas e respeitosas. Afinal é super bonito o garoto contar aos amigos que “pegou 10 na balada”, mas se o papel se inverte, ela será uma vadia. A orientação sexual, que normalmente aflora junto com a puberdade (10, 11 anos) vai ser inserida dentro desse contexto que é criado desde o primeiro ano de vida e é aí que surge o preconceito pessoal da criança, a homofobia pessoal, pois ela terá em xeque na sua mente um pensamento padronizado de comportamento e verá que existe na realidade uma gama de vieses as qual em uma delas ela foi designada, é o caso famoso do gay homofóbico, que pode vir a ser alguém enrustido ou então “discreto”, que vai abominar quaisquer representação de sua orientação sexual mais gritante, como a parada LGBT, por exemplo ou alguém mais afeminado.

A genética não pode ser entendida via determinismo genético, é por isso que a ciência não caminha sozinha (por mais que ela deva ser estudada com recursos de isolação), esse pensamento é antiquado e falacioso.

Outro fator muito citado pelo pastor é o caso da identidade de gênero, esse sendo um pouco menos complicado de se entender, mas claro, para ter ciência do que estará sendo apresentado é necessário levar em conta o darwinismo e toda evolução, se olharmos com olhos religiosos para a questão da identidade de gênero, iremos cair novamente na teoria do “preto no branco”.

Em meu texto denominado “Uma rápida aula de biologia à Luana Basto”, defini biologicamente macho e fêmea para que não haja confusão: “Macho é o indivíduo da espécie que produz gametas móveis (espermatozoides ou anterozóides), que carregam um par de cromossomos (XY). Fêmea é o outro individuo, tendo o sexo biológico oposto ao do macho, visto que a mesma  produz gametas estáticos (óvulos) que produzem um par de cromossomos (XX).

A reprodução é um outro fator interessante para se determinar macho e fêmea – biologicamente falando -, onde o macho só consegue copular com fins de gerar novos indivíduos com a fêmea (e vice versa). Pronto. Isso é macho e fêmea para a biologia.”

Desde que os seres vivos, na escala evolutiva, foram transformando seus corpos começou a existir uma similaridade sexual em alguns e uma diferente em outros. Existem seres monoicos e dioicos e esses são os fatores que vão possibilitar entendermos a identidade de gênero. Um peixes e anfíbios, seres vivos igualmente evoluídos, porém de linhagens mais antigas do que o ser humano possuem a capacidade cerebral e física de trocar de sexo para regularem algum defeito dentro do ambiente que estão, conforme as espécies foram evoluindo, chegou um momento que não era mais possível um animal trocar de sexo, pois ele gerou em sua estrutura corporal órgãos sexuais distintos. Porém restou apenas um lugar onde essa troca é possível: na mente desse animal. (Foquemos no ser humano) O transexual ou a travesti é aquela pessoa que nasceu com o sexo biológico (hormônios, cromossomos, tudo certinho) de um, porém sua mente sente-se enclausurada nesse corpo, pois na verdade ela pertence ao sexo oposto. Assim como a escala Kisney, transgêneros também possuem seus níveis e esses não estão direcionados ao sentimento e sim a sua identificação. Existirão trans (vou abreviar) que não se importam em continuar com seus corpos de nascença, até porque a cirurgias e tratamentos hormonais são evasivos, porém essa pessoa ainda vai se identificar como trans, existirão trans que, por escolha ou coerção social sentirão desejo de fazer a cirurgia de troca de sexo (ou readequação)  completa e existem também aquelas que se denominam travestis, grupo cuja identidade de gênero é diferente do sexo biológico, mas não necessariamente deseja realizar toda a cirurgia ou todo processo hormonal. O grande problema do/da transexual e da travesti está no psicológico, pois existe em cima dessas pessoas uma coerção dobrada, pois a sociedade que adora ditar tudo “preto no branco” vai discriminá-los por querer ou não se assumir e também, após a saída do armário, vai discriminá-los por desejarem ou não se submeter a atos cirúrgicos.

Não necessariamente a transexualidade vai se aflorar na infância e não necessariamente algum comportamento que remeta a outro gênero é sinal de transexualidade, criança é criança. Existem casos de transexualidade aflorada ou desreprimida (essa palavra não existe, mas entenda o contexto) na idade adulta do ser, exemplo a cartunista Laerte Coutinho, uma das melhores cabeças no ramo dentro do país e uma ativista dos direitos trans muito coesa e livre de preconceitos de gênero.

“Ser homem” e “Ser mulher” vai além de seus cromossomos terem gerado em você um órgão reprodutor A ou B (ou os dois no caso dos hermafroditas, mas daí a maioria deles não possuem os dois completos ou são estéreis), é aí que vem a formação do gênero social, de como a pessoa se sente e se apresenta para a sociedade. Na maioria dos casos o gênero social bate com o biológico, ou seja, um macho (XY) possui um pênis (órgão genital masculino) e se identifica com o gênero masculino (cisgênero). Mas há casos onde há uma inversão de gênero, exemplo uma fêmea (XX) possui uma vagina (órgão genital feminino), mas se identifica como sendo do gênero masculino (transgênero).

É isso que não está querendo ser aceito, e pior, em alguns lugares – como aqui em Campinas – está querendo ser vetado o debate nas escolas. Existe uma gama de identidades sexuais e todas elas se diferem de orientação sexual (hetero, bi ou homo), não podemos confundir. E não só isso, não podemos nos dar ao luxo de sermos trouxas a ponto de acreditar que o gênero social pode ser multiespécie. GÊNERO É VARIADO, PORÉM APENAS DENTRO DA ESPÉCIE HUMANA, ou seja, masculino e feminino (sendo cis ou trans).

Dizer que “ideologia” de gênero vai incentivar pessoas a querer ser animais ou ficar trocando de gênero a cada dia (“ah, hoje eu acordei menino, ah, hoje eu acordei menina”) é mau-caratismo sim e de uma argumentação chula e baixa, muitas vezes não é só falta de estudo, é pura hipocrisia. São argumentos desse nível que fazem muitos não levar o debate a sério e se vender para uma ideia de que debater identidade de gênero é aliciar alguma coisa nas crianças. Se seu filho/filha for transexual, ele SERÁ transexual, cabe a você família (instituição) aceitar ou não a identidade de gênero dele/dela.

Gênero não se escolhe, expressá-lo é uma escolha e coibi-lo é a pior maneira de tratar a situação. Quando são expostos na mídia casos de transexualidade, é visto há algum tempo uma certa insistência em discursar sobre implantação da tal “ideologia de gênero”, sendo que é muito simples: se você não for transexual, você não será e pronto. Creio que o maior exemplo disso seja o caso do garoto Bruce Reiner, um canadense que teve o pênis cauterizado quando bebê por incompetência médica, seus pais então errôneamente foram aconselhados a tratá-lo como menina, ele vestia roupas de menina, frequentava o banheiro feminino, era chamado de “her” (ela, em inglês), porém Bruce não era uma mulher, seu corpo estava transformado, mas ele não era uma mulher, seu gênero era masculino. Depois de tantos desvios emocionais, ele acabou cometendo suicídio. Esse caso é conhecido na psiquiatria como Distúrbio de desenvolvimento Sexual, e isso não tem nada a ver com “implantação de identidade de gênero”. Hoje, com a medicina e a psicologia avançadas podemos determinar por pesquisas mais objetivas o cérebro de pessoas que se dizem transexuais e melhor conduzi-las a tratamento adequado.

Não há argumentação contra a identidade de gênero que não carregue um sentimento preconceituoso pessoal, muitas vezes ligado a alguma religião (que, sem prova alguma, determina que tudo é preto no branco).

Espero ter me expressado bem, obrigado.

Diversidade_sexual_imagem

FONTES;

OBS: Nos vídeos do biólogo Pirula e do geneticista Eli, procure também pelas fontes que eles utilizaram para suas ideias, existem mais casos e diferentes visões sobre o tema.

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