CINQUENTA TONS PRO CAIO

Deixemos de lado o fato de eu ainda não estar sabendo como lidar com a aparição de Caio (o namorado incrível da Jout Jout), e não digo a desse último vídeo (que você pode ver clicando aqui) só, mas também de uma série de comentários que circularam na Web nesse mês de dezembro sobre um pessoal que estava espalhando suas fotos por aí.

Caio nesse vídeo levantou um debate que julgo de vital importância e que resume bem um dos porquês do nome desse blog ser “Fifty Shades of Nigga” (ou, no bom português: “Cinquenta tons de negro”).

Segue abaixo então uma reflexão em forma de carta – que eu também redirecionei para o email da Júlia pedindo para que ela mostrasse ao Caio.

Olá, Caio (e Julia), tudo bom?

É, infelizmente toda aquela tensão sobre a identidade de MC Faceless acabou. É, eu até gostava, mas fazer o quê? Tem gente que curte acabar com a graça dos outros ¯\_(ツ)_/¯. E mesmo que não fosse “graça”, era divertidíssimo!

Pois bem, venho por meio desta expressar alguns sentimentos que tive tanto lendo ao texto quando vazaram as fotos quanto sobre o último vídeo do canal (que eu descobri esse ano e já amo).

Primeiramente achei de suma importância uma declaração sobre o ocorrido, no “mundo dos famosos” a exposição é algo a ser muito bem controlada e deve ser sim algo a se criticar (se não quer aparecer, não vai e pronto! Não tem que haver essa insistência desnecessária), não se pode jogar ao sabor da internet pois vemos a balbúrdia que se torna, desde uma coisa complicada como nudes até um fato tão simples como o rosto do namorado de alguém famoso. Tudo vira zona quando cai na rede, essa é a realidade, infelizmente.

Mas vamos focar no que realmente interessa aqui. Caio apareceu e levantou uma questão que meche não só com ele, mas com muitos dos que foram alvos dessa “Festa da Uva” que foi a miscigenação no Brasil, que pasme, é um país extremamente racista!

Você (Caio) levantou argumentos que sempre me fizeram refletir, mas creio que para deixar o debate mais interessante faltou você fechar e abrir alguns parênteses.

Calma, vou explicar: O racismo no Brasil é fato, certo? Ok. Possivelmente o racismo que alguém de nossa cor (sim, temos tons de pele iguais, mas eu uso black power) sofreria na Bahia seria diferente do que o que sofreríamos no Paraná, por exemplo. E Por que? Pois o Brasil é um país de dimensões continentais e não existe um ‘padrão’ de miscigenação, são inúmeros tons (sem contar o bronze!) de pele que marcam as pessoas e essa questão da auto afirmação é mais importante do que parece! Ou seja, se reconhecer branco é se reconhecer como membro de uma etnia que um dia invadiu essas terras e dominou tudo; se reconhecer indígena é se afirmar de uma etnia que vivia deboas aqui até chegar uma galera e matar todos seus irmãos; se reconhecer negro é afirmar uma etnia que foi arrancada de sua cultura e trazida a força para cá para trabalhar de servo para outra etnia, a mesma que veio aqui e matou os índios; e se reconhecer pardo é afirmar que sua etnia surgiu da miscigenação entre eras dentro do país e que ela representa muitas vezes a luta contra esse racismo (ou então, para não dizerem que eu sou muito pacifista, também pode ser entendida como variável no processo de “embranquecimento” da sociedade pós-escravidão).

O que vale é a sua auto afirmação e é aí que eu destoo um pouco de uma frase sua: “para eu ser considerado negro eu tenho necessariamente que ter sofrido racismo?” NÃO. Para se considerar negro você olha mais que o fenótipo (e é aí que nos diferenciamos dos racistas), nós entendemos o nosso papel social como indivíduos, nossas aspirações e sim, obviamente como a sociedade nos trata. Sou fã de cinema e uma cena que resume exatamente o que quero dizer é a do filme “Histórias Cruzadas” (The Help, em inglês), quando Hilli (personagem de Bryce Dallas Howard) está contando para Eugenia (Emma Stone) sobre o ‘banheiro privado’ da empregada Aibeleen (Viola Davis). Ela diz “Separadas, porém iguais”. Nada mais racista como um racismo velado. Deve ser por isso (de repente, não quero acusar nada) que você diz nunca ter sofrido racismo.

Outro fato importante dessa discussão que você trouxe a tona novamente foi que ninguém em hipótese alguma deve TE definir como “isso” ou “aquilo”, isso é algo tão pessoal que palavras não expressão quanta ênfase tem que ser dada na palavra “tão”. o fenótipo, como já dito, vai apenas marcar o racismo, isso é, não vão olhar para tua arvore genealógica para serem racistas comigo, contigo… vão olhar para sua aparência! É filho de pai preto e mãe branca (como no meu caso)? Dançou! De repente meu irmão que nasceu dos mesmos pais, mas nasceu mais branquinho não vai sofrer!

Todos nos sentimos incomodados quando dizem “nossa, mas você é só marronzinho, você não é negro!” A nossa auto afirmação (sempre bem pautada e baseada em uma lógica minimamente coerente) é quem vai tirar o “eu sou…” da nossa boca. Como eu disse, temos tons de pele muuuito iguais, mas você se considera pardo e eu negro. Vivemos vidas diferentes, falamos com pessoas diferentes, isso foi criando a nossa auto afirmação.

E Julia, você tem um namorado perfeito que se comunica muito bem. Obrigado pelo lindo vídeo!

Abraços

Flávio Menezes 😉

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(Esse na foto não é Caio, sou eu. Caio é mais provido de beleza)

 

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