1912 ORANGE AVE, ORLANDO

De noite, uma mãe recebe a mensagem do filho. “Mãe, eu te amo” “Estou ouvindo tiros” “Estou trancado no banheiro” “Chame a polícia” “Eu vou morrer”.

Poderia ser um começo de trailer de filme de suspense facilmente, mas não, foi real e aconteceu esse fim de semana na boate PULSE em Orlando, Flórida.

Muito já foi dito, porém pouco foi refletido sobre o atentado que ocorreu nos Estados Unidos, o mais sangrento e com mais mortes recente no país, onde já tivemos casos como Columbine e Newton. Foram até agora 50 mortes confirmadas. 50 vidas tiradas por motivos de ódio e preconceito.

Logo, entramos na primeira questão a ser debatida: Foi um crime de preconceito isolado ou foi um atentado terrorista?

Omar Mateen, cidadão americano, nascido nos EUA, dono da arma e dos disparos era muçulmano e tinha ligações com o grupo terrorista ISIS (popular Estado Islâmico), publicamente inimigos dos EUA. A família de Omar, também muçulmana, afirmou à imprensa após o atentado que ele vinha por meses repetindo um mantra de ódio à classe LGBT, que quando estava em Miami havia visto um casal homoafetivo se beijando e sentiu enorme repulsa e isso foi alimentando seu ódio.

O Corão faz referência a atos sexuais. O Profeta Maomé e os primeiros estudiosos também falavam sobre atos sexuais e desejo. No entanto, os estudiosos clássicos não discutiam a diferença entre atos sexuais e identidade.

Sim. O Alcorão celebra a diversidade. Ele até protege a diversidade religiosa, ao instruir que os muçulmanos protejam outros grupos religiosos, como os judeus, que estejam vivendo sob autoridade muçulmana. O Corão diz que a variedade humana na aparência, cultura, linguagem e até religião foram criadas pela sabedoria divina de Deus.

Nós sabemos que a homossexualidade existe, entre seres humanos com livre arbítrio. Ela também existe entre animais – e o Corão diz que os animais não têm livre arbítrio, eles apenas obedecem Deus. No Corão, Surat al-Rum (30:22) diz que Deus criou os seres humanos com diferentes alwan, uma palavra que pode significar tanto “cores” como “gostos”. Os seres humanos com certeza têm diferentes gostos para muitas coisas – inclusive a sexualidade. Parece claro que a diversidade sexual também deve ser um tipo de diversidade humana que foi criada pela sabedoria divina de Deus.

Porém, dentro de um regime ditatorial que se organiza de modo a focar numa finalidade que é conquistar toda região e tornar-se a religião única, estabelecendo no mundo seu lugar de Estado e liderada por extremistas que abraçam discursos de ódio, o Corão é reduzido a uma ficha de leis que você pode compreender da maneira que bem entender. Pior, da maneira que seus líderes bem entenderem. Isto é, toda a tradição de liberdade individual do muçulmano passou por transtornos centenários e lutas internas, que foi transformando o modus operandi da própria religião durante os tempos, reforçando o uso da violência e criando o Estado Islâmico (aconselho uma lida em um antigo texto do blog, “Terrorismo?“, clique aqui).

Após a reflexão, considerei todo histórico que levou Omar a entrar na boate e abrir fogo contra todos ali presentes e cheguei a conclusão inevitável: Foi um atentado terrorista sim, porém com cunho LGBTfóbico, isso não podemos negar. A escolha do local explicita isso, essas mortes comprovam isso.

O que muito está se tentando fazer é extrair de todo o contexto do atentado apenas o termo “terrorista”, por ter sido feito por um filiado ao ISIS e por ter sido nos Estado Unidos. Pois bem, pergunto eu aos meus botões “qual seria a finalidade desses que estão tentando dar esse tipo de explicação?”, homens como Donald Trump ou o pastor evangélico Steven Anderson.  Atrevo-me a dizer que é impossível deixar agora as políticas e os desejos dos reacionários de lado, visto que são dois membros ativos dentro da disputa política norte americana que vêem essa tragédia como catapulta para seus discursos preconceituosos, ou seja, a intenção de ligar esse massacre a um ataque puramente terrorista reforça o discurso de “temos que controlar a entrada de estrangeiros nos EUA”, de “temos que reforçar o combate aos muçulmanos que desejam destruir nosso país e nossa cultura”. Isto é, mais que explícito um suspiro pela manutenção de um status quo mentiroso que os Estados Unidos passa para o mundo de serem o país da liberdade e o país bem desenvolvido. O desejo de desvincular esse massacre de um atentado homofóbico reforça mais ainda a fragilidade da própria afirmação de pessoa que respeita os direitos humanos, ou seja, negar que exista homofobia.

Uma vez li em um desses grupos de facebook que participo uma postagem: “Não existe homofobia, said no one ever”. Realmente, esta frase ipsis litteris pode nunca ter sido dita por ninguém nunca, até porque não cairia bem na mídia muito menos com os LGBTs, porém atitudes como as pós-atentado vindas de conservadores religiosos (e aqui escrevo religiosos pelo fato de serem realmente discursos de várias religiões e não apenas da católica, a mais comum no ocidente) reforçam a ideia de desvincular homofobia de quaisquer crime. Me lembro da definição que o deputado Marco Feliciano deu no púlpito da casa do povo ano passado e em outras oportunidades, dizendo que homofóbico é aquele que mata homossexuais, que deseja a morte e, por isso, ele não poderia ser chamado de homofóbico, pois seria um insulto já que ele nunca desejou a morte dessas pessoas… No dia 12 de junho, as 13:23′, Feliciano posta no twitter: “Triste a tentativa de grupos LGBTT de usar esta tragédia para se promover. Como se a razão deste ataque fosse apenas homofobia”. Sem mais, fica a reflexão.

Todo esse caminho lógico que estou tentando criar nesse texto é para construir dentro de você, leitor, um raciocínio que leve a entender o porquê não podemos desvencilhar a religião muito menos a homofobia do caso do massacre em Orlando, pois os 50 que morreram não foram cinquenta “qualquer”, membros da classe LGBT como eu ou simpatizantes que já frequentaram uma balada LGBT sabem que aquele espaço para muitos é um refugio, um lugar aonde você se sente acolhido e aceito da maneira que você é, o popular “Vale dos Homossexuais” faz com que você experimente a máxima da sua expressão de gênero, sem barreiras e sem preconceito. Quebrar essa fortaleza LGBT é, sem dúvida, um crime homofóbico, pois assassinar LGBTs dentro de um espaço como um shopping é algo, assassinar LGBTs dentro de uma balada LGBT é outro, é escolher a dedo que segmento social vai morrer hoje.

O impacto que isso causa na classe LGBT é enorme, vi colegas em prantos e apreensivos, pois (repito) a última barreira de segurança dos LGBTs foi rompida naquela noite, aí também encontramos a finalidade do terrorismo estampada nos rostos de pessoas que vivem bem longe de Orlando, pois se aconteceu lá, pode acontecer aqui. Remoí esse trecho do texto tantas vezes que nem tenho certeza se me expressei bem, leitor, mas é algo muito mais profundo do que se pode imaginar.

Não é necessário me estender na questão. Fica-lhes a reflexão sobre todo esse caso que ocorreu nos EUA. E dos demais casos acobertados por uma mídia que prefere esconder as reais razões dos fatos e não transparecer que existe LGBTfobia (não negue o componente religioso que serve de veículo para a ação da pessoa, claro), que nos torna invisíveis e, quando visíveis, aberrações.

Não lhes é viável, não vem ao caso.

#PrayForOrlando

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