INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E A QUESTÃO DO ENEM

Enquanto vos escrevo, possivelmente mais de oito milhões de jovens estão agora – 16h – sentados em suas apertadas cadeiras Brasil afora dissertando sobre Os Caminhos para combater a intolerância religiosa no país, o tema da redação desse ano que, cá entre nós, foi desenvolvido a dedo pelos educadores que prepararam a prova. Para experimentar algo mais didático, irei separar esse texto em três partes: uma introdução, um comentário sobre a redação em si e um comentário sobre a realidade no país. Elas poderão ser lidas da maneira que você, leitor, bem desejar.

I – Os problemas da intolerância religiosa no Brasil

É perceptível hodiernamente no país uma manutenção nos números absurdos de casos de intolerância religiosa no Brasil, são casos e números preocupantes, visto que, de certo modo, vivemos num país laico e que em tese deveria acolher todas as religiões – e os não religiosos -, a prática nega isso. Os impasses sociais que causam as ações de intolerância religiosa vêm de certa forma demonstrando como nosso sistema de democracia social é ineficiente, Pierre Bourdieu já argumentava que não é possível haver democracia sem um contra-poder crítico, falta isso aos cidadãos brasileiros, isso e entender que democracia é muito mais do que a decisão da maioria, pois esta não pode infringir quaisquer direitos legais de outras minorias, democracia é estar de acordo com as regras do jogo e não com os conteúdos.

A intolerância religiosa aparece nesse cenário quando vemos as regras sendo quebradas pela discordância dos conteúdos, desde que existem religiões existe intolerância religiosa, mas não podemos nos prender ao modo arcaico a fim de uma satisfação saudosista – quase sexual – de que “a minha religião venceu a sua” e nos colocarmos em pedestais, hierarquizando a importância das religiões, afinal, dentro mesmo de várias religiões há a intolerância religiosa: sunitas e xiitas, católicos e protestantes… O ponto crucial que gera a intolerância religiosa é a falta de razão democrática. Dirá o senso comum que lhes falta amor, porém amor não pode ser intrinsicamente ligado com a razão, visto que o amor também é cego e possui seus defeitos, a razão, por mais inalcançável aos modos hodiernos que seja será mais democrática que o amor. Eu não preciso amar quem discorda de mim, eu preciso respeitar.

II – A redação do ENEM e o “esquerdismo”

Não bastam as reafirmantes históricas do conservadorismo brasileiro em se oporem a todos os avanços progressistas, majoritariamente oriundos de pensamentos de esquerda, o reacionário não consegue enxergar a quebra nos padrões democráticos que ele sugere a cada ato que anda na direção oposta ou paralela ao ato progressista, isto é, mesmo se for bom para o povo, o conservador será contra pois a ideia veio “da esquerda”.

O mais interessante nessa análise é ver como, na realidade, esse pensamento reacionário – que não é de hoje – esbarra em todas as suas próprias falácias e àquelas que eles acusam a famigerada “esquerda” de proferir. Dentro dos ideais de Hirschman¹, poderíamos apontar as três teses intransigentes dos conservadores afim de barrar as tentativas progressistas de combata à intolerância religiosa.

A grosso modo: dentro da tese da perversidade, vemos que os argumentos dos conservadores são de que as tentativas de uma maior democratização dentro da linha do respeito à religião tornará as pessoas mais intolerantes ao invés de melhorá-las. Dentro da tese da futilidade, observamos o argumento que essas leis de incentivo a não-intolerância religiosa são em vão, visto que o sistema brasileiro é um sistema hegemonicamente cristão e que o Brasil é um país laico pero no mucho. Já dentro da tese da ameaça, observamos como os argumentos se estruturam afim de indicar uma perda de conquistas das outras religiões e do próprio ateísmo no país caso as mudanças em prol do combate a intolerância religiosa se estabeleçam.

Tendo em vista essa linha argumentativa, não é atoa que borbulham/irão borbulhar comentários reacionários do tipo “tive que ‘esquerdar’ para fazer uma boa redação”, infelizmente para o senso comum nacional os direitos humanos são coisa de esquerdista. Ano passado foi a mesma coisa com a redação sobre a violência contra a mulher e o mesmo tipo de indagação oriunda do conservadorismo, não lhes passa pela cabeça que os direitos humanos são e ponto, eles não são “de direita” ou “de esquerda”, eles atendem as necessidades do ser humano, independente de etnia, gênero ou preferência religiosa. Não aguardem menos – infelizmente – do conservadorismo nas próximas semanas e daqueles que dissertaram na prova do ENEM, o discurso sempre parte de um princípio único que é a manutenção dos privilégios daquilo que gosto de me referir como Elite Branca (leia o texto aqui), um pensamento que pode ser adotado por quaisquer ser humano independente de classe ou não. Quando a visão mais clara é que seus privilégios estão sendo perdidos, o desejo reacionário salta na pele e a pessoa se vê em cheque, não sabe se seu movimento será benéfico ou não e para que parcela da sociedade.

O ENEM acertou e muito com esse tema, aguardemos para saber o que os jovens dissertaram.

III – O Brasil e a intolerância religiosa

Nosso país registra milhares de casos de intolerância religiosa por ano e esse número oscila dentro de uma moda não muito animadora. Vimos nesse ano que a religião e a política estão num abraço tão forte que conseguiram ajudar a embaralhar ainda mais as prerrogativas do golpe: “por Deus e pela minha família, eu voto SIM!”. E não só dentro do cenário político propriamente dito, mas também pela vida social e turbulenta que principalmente os centros contemporâneos e grandes capitais viveram até a consolidação do golpe. Discussões, protestos, nervos à flor da pele, tudo isso girando em torno de figurões que de alguma forma têm seu rabo preso com religiosos.

Vimos a ascensão de figuras como Nando Moura e o resgate de outras como Malafaia, Pe. Paulo Ricardo e Olavo de Carvalho e seus discursos intransigentes, não atoa esses discursos existem e se aplicam na sociedade, eles cativam um público despreparado e desesperado, eles são “fáceis”, “engolíveis”, suas premissas agradam o povo e o senso comum. Essa realidade mostra como a comunidade não está preparada para esse debate, mas infelizmente assim mesmo ele precisa ser feito, pois não podemos ficar esperando sentados que a sociedade se apazigue a respeito disso.

 

primeiramissa_portinari

“A primeira missa no Brasil” – Cândido Portinari. 1860

 

A busca pelo fim da intolerância religiosa não consegue ser alcançada se não passar pela fina peneira da guerra do pensamento lógico argumentativo e da razão, desbancar esses argumentos intransigentes e trazer o povo, dentro dessa base, para se indagar sobre os direitos humanos, independente de acharem que “é coisa de esquerdista”.

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Nota: ¹ – HIRSCHMAN, A. O. “A Retórica da Intransigência”, 1992.
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