2016: UM ANO CINEMATOGRÁFICO

Não, essa não é uma metáfora para me referir às bizarrices sociopolíticas que aconteceram nesse que para ser um ano (quase) esquecido. Em termos gerais, concordo com os termos da ambiguidade do título desse post, todavia eu vim aqui hoje para dizer que: Nem tudo em 2016 foi um completo desastre e, ao julgar pelo Oscar dado a Leonardo DiCaprio no início do ano, algo me disse que o cinema seria o ponto forte de um ano cheio de golpes e retrocessos. O cinema avançou e 2016 foi o melhor ano do século XXI até agora para a sétima arte.

Quando nos referimos a Cinema, claro que uma boa parcela dos cinéfilos está se referindo aqueles filmes que vêm com intuito de inovar ou aperfeiçoar os métodos cinematográficos, dar mais paixão à sétima arte e desenvolver um olhar crítico sobre o cinema, aprimorando filme após filme.

Os enredos de 2016, nacionais e internacionais, não deixaram a desejar, completos, alguns até complexos, cheios de paixão, como deve ser o cinema. Aqueles que prestam atenção nesses detalhes que ao grande público passam despercebidos com certeza saíram satisfeitos após uma sessão. Os filmes foram colossais.

Chegando ao final do ano, nada melhor do que fazer algumas comparações e expectativas para as premiações que ocorrem no início de 2017. Afinal, quem levará o Oscar e por quê? Quem vence a Palma de Ouro merece uma chance? Qual foi o melhor filme do ano?

Comecemos…

Oscar 2017

Dificilmente os melhores filmes do ano irão se encaixar na disputa pelo homenzinho dourado, até porque a Academia costuma escolher entre filmes estadunidenses/canadenses para a premiação, porém esse ano os forasteiros vêm com peso, pois são grandes histórias e mostraram ser capazes de desbancar Hollywood.

As grandes apostas giram em torno de cinco filmes:

“A Chegada”, de Dennis Villeneuve. Considerado o “2001” da atualidade, o longa explora os contatos extraterrestres de maneira peculiar e não como necessariamente um filme de catástrofe. Claro que, para os muitos que consideram – assim como eu – o filme de Kubrick o melhor filme já feito, uma pitada de expectativa caiu sobre o filme e podemos sem querer deixar escapar a importância para a contemporaneidade do longa. Realmente um dos melhores filmes do ano e fortíssimo candidato a estatueta.

“LA la Land”, de Damian Chazelle. Superestimado? Não sei, porém o filme chega em condições reais de fazer bonito nas telonas com Ryan Gosling e Emma Stone, dois dos maiores atores em ascensão em Hollywood. O filme é “fofo” aos olhares do povão, porém melódico e com a pura e completa utilização nos métodos cinematográficos para um olhar mais aguçado. É aquele filme que agrada a todos justamente por sua simplicidade sem ser um clichê.

“Loving”, de Jeff Nichols. Pode talvez ser apenas uma história impactante, mas sua construção e atuações são pra lá de profissionais. De certa forma, esse filme merece ser visto não só uma vez, mas até entendermos seu significado por trás da obviedade dos conflitos jurídico-raciais norte americanos.

“Café Society”, de Woody Allen. Talvez pinte na premiação, pois Allen sabe – e muito bem – como contar uma história, como construir uma personagem, como utilizar-se de metáforas visuais para apontar ao espectador seus gostos pessoais dentro do filme, como aplicar o roteiro em seu tempo e espaço ideal. Café Society é maravilhosamente simples.

“Manchester à beira do mar”, de Kennech Lonergan. Um dos melhores filmes creio que correrá por fora pela estatueta, talvez por ser um tanto melodramático para a Academia, porém deve ser citado nessa lista, tanto pelo fato de ter um enredo interessantíssimo quanto pelo apelo dos críticos.

O Oscar não necessariamente premia o melhor filme do ano, porém sua decisão não deve ser descartada, muitos dos filmes que já venceram o prêmio estariam na lista de melhores do ano, porém a Academia possui um sistema de membros vitalícios, isto é, as visões sobre cinema vão mudando, porém um certo conservadorismo ainda ronda os Oscars de modo que fica complicado confiar piamente na escolha de mais de 3600 atores/diretores/produtores/críticos de idades e visões tão diferentes sobre o cinema. É por isso que vale a pena citar também os

Melhores filmes do ano

Com certeza essa lista possui algumas apostas individuais e outras mais de senso comum entre os cinéfilos. Alguns dos filmes aqui ainda não lançaram, devo dizer, porém estou também confiando nas inúmeras críticas dos festivais sobre os citados abaixo. Deve-se dizer, toda vez que se cria uma lista como essa, que o método para a escolha do melhor filme é um tanto cruel, pois aquele que gosta de cinema deve desvincular seu olhar de espectador e seu olhar crítico sobre a obra. Sem mais delongas:

“Kate Plays Christine” ou “A Chegada”.Qual o melhor filme do ano? Difícil escolha, ambos estão em pé de igualdade. O mais interessante a se pensar é que, independente de qual seja o melhor, observamos que o gênero feminino dominou as histórias fortes de 2016 e se fez presente em quase todos do Top 10 dos melhores filmes do ano. São duas histórias densas e impactantes, não possuem erros. Tecnicamente quase nenhum dos filmes da lista possui, não tem por que não dar nota 10 para esses dois filmes gigantes!

Fora essas duas obras colossais, que sem sombra de dúvida são os dois melhores filmes do ano, confira abaixo a lista dos dez melhores longas de 2016:

  • Kate Plays Christine, de Robert Greene (ENG)
  • A Chegada, de Dennis Villeneuve (USA)
  • Eu, Daniel Blake, de Ken Loach (ENG)
  • Aquarius, de Kléber Mendonça Filho (BRA)
  • Loving, de Jeff Nichols (USA)
  • O Apartamento, de Asghar Farhadi (IRN)
  • Fixeur, de Adrian Sitaru (ROM/FRA)
  • Neruda, de Pablo Larrín (CHI)
  • Julieta, de Almodóvar (ESP)
  • Cinema Novo, de Eryk Rocha (BRA)

É interessante percebermos a colocação dentro dessa lista – que, novamente, não é consenso – a variedade e a paridade de filmes não-estadunidenses, como houve uma profissionalização dos países de terceiro mundo e como o Brasil conseguiu atingir com essas duas grandes obras  um lugarzinho na história, mesmo com todo o esforço e negligência do Estado e dos cidadãos para com o cinema nacional. Depois desse ano brasileiro algum está permitido a dizer que não sabemos fazer cinema, não só sabemos como somos dignos de um alto patamar e de uma placa na história, somos talvez um dos povos que produz cinema de qualidade que na realidade só será reconhecido no exterior, como diz meu velho amigo Orestes Toledo “O cinema brasileiro no Brasil é estrangeiro”.

Claramente vemos na lista supracitada dois filmes- chave: O possível Vencedor do Oscar e o Vencedor da Palma de Ouro. Isso se deve pela importância das duas premiações. Hodiernamente por sua maior mídia e representação na sociedade, o Oscar encanta mais do que o Festival de Cannes – o mais importante e concorrido do mundo -, enquanto um premia com exatidão o outro ainda peca em escolher seu melhor filme e muitas vezes acaba dando um prêmio de consolação em algumas categorias, o que não acirra essa corrida para ser o melhor do ano. Muito dificilmente filmes como “Eu, Daniel Blake”, “Kate Plays Christine” ou “Aquarius” estarão na premiação em fevereiro, mas isso não significa que são menos importantes.

E por último – mas não menos importante, muito pelo contrário – o grande salto do cinema nacional

ESTAMOS DE PARABÉNS, Brasil! Por esse 2016 fantástico nas produções cinematográficas, foram obras incríveis de encher os olhos do espectador, tramas muito bem montadas e com um nível de profissionalização de dar inveja em Hollywood. Não é muito dizer isso, simplesmente mostramos a que viemos.

Infelizmente nem tudo são flores, toda a situação sociopolítica gerou certo desconforto no cinema nacional, principalmente envolvendo o filme “Aquarius”, cujos atores e o diretor Kléber Mendonça Filho fizeram um protesto silencioso contra o golpe que ocorreu no país e, como retaliação, não obtiveram uma vaga para disputar o Oscar de melhor filme estrangeiro, indo no seu lugar outro bom filme – porém nem tanto -, “Pequeno Segredo”, de David Schurmann. Sonia Braga, atriz principal do filme de Mendonça Filho está impecável, talvez seu melhor trabalho no cinema, como dizem muitos críticos, ela incorporou a jornalista Clara de maneira tão feliz que é impossível não se tocar com a história. Um domínio absurdo do cinema.

Os documentários esse ano também não deixaram de representar, ideias novas e com uma visão muito diferente do padrão documentarista fizeram a diferença dentro do cenário nacional. Outro ponto a ser aplaudido é a superação do cinema nordestino sobre o paulista e o carioca, dos polos mais importantes de cinema do país, com certeza o de Pernambuco demonstrou por que é considerado o melhor.

Confira então uma lista dos dez melhores longas nacionais de 2016:

  • Aquarius, de Kléber Mendonça Filho
  • Cinema Novo, de Eryk Rocha
  • Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos, de Sergio Oliveira
  • Elis, de Hugo Prata
  • O Shaolim do Sertão, de Halder Gomes
  • Boi Neón, de Gabriel Mascaro
  • Mãe só há uma, de Anna Muylaert
  • Meu amigo Hindú, de Hector Babenco
  • Eu sou Carlos Imperial, de Renato Terra e Ricardo Calli
  • Mate-me por favor, de Anita Rocha da Silveira

De maneira espetacular vai se encerrando o ano do cinema, mas aguardemos que 2017 possa nos surpreender novamente.

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