QUEM TEM MEDO DA IDEOLOGIA DE GÊNERO?

0sexo dos anjos

Recorte da obra Palla dello spedalingo, de Rosso Fiorentino, 1518; precisamos parar de discutir o sexo dos anjos dentro do movimento LGBTQ

 

Queira você ou não, interlaçar os estudos biopsicossociais a respeito de nós é o mínimo necessário antes de começarmos a brincar de donos/as/es da verdade. Digo isso para qualquer pessoa independente de posições políticas ou de ideologia, visto que, para termos base para falar sobre algo sem parecermos rasos, orientação e vontade de saber são primordiais.
Dividi esse texto em duas partes, a primeira vai tratar apenas das minhas experiências nas pesquisas sobre sexualidade e gênero de uma forma superficial porém que basta para que você, leitor, compreenda quando eu utilizar as palavras “sexualidade”, “gênero”, “ideologia de gênero”, etc; Como não sou membro de nenhum movimento LGBTQ real-oficial, busquei por meio autônomo todo esse conhecimento, minha proposta aqui não é levantar bandeira e sim criticar o movimento por suas demonizações de certos indivíduos.

PARTE 1 – EXPLICANDO MINHA VISÃO DAS NOMENCLATURAS

No que tange a sexualidade humana, de uns tempos pra cá venho tendo uma posição bem definida, guardada as críticas à binaridade que a ciência moderna não deixou de lado ainda, é impossível negar que esses estudos nos encaminham para uma resposta mais objetiva – menos uma “verdade factual” abstrata que defende algo que aquele ou este ponto de vista, ora, sempre haverá contestação e esse é o mais divertido na ciência. Porém negar as bases biológicas é algo que ser humano em completa sanidade não deveria fazer.
Ao meu ver, entendo a sexualidade humana como uma questão epigenética[1], que por sua vez é muito confundida entre alguns e algumas “especialistas” oriundos das Ciências Sociais com algo na formação cromossômica. Seria um absurdo e quem já me ouviu dizer que “homossexualidade não é genética” com certeza ficou espantado a certo ponto, uma vez que só essa frase, solta ao sabor dos ventos e da maldade dos indivíduos, pode parecer um discurso que tente legitimizar certa homofobia ou algo do tipo, não. As matrizes epigenéticas são algo complexo até para mim que fui atrás, imagina para quem escuta o termo pela primeira vez? Me lembro de uma aula de uma matéria chamada “Antropologia e Estudos de Gênero” onde a discussão se voltou para as evidências científicas da sexualidade humana e eu expus meus argumentos, tres quartos da classe ficaram boquiabertos e alguns acharam um absurdo querer responder essa questão via um argumento científico-biológico, enfim.
A homosexualidade, nesse ponto de vista, é diferente em corpos femininos e masculinos – e é aí que as pessoas talvez façam confusão, pois quando se expõe a genética para explicar a epigenética, primeiro é preciso diferenciar os corpos de sexos binários para depois explicar suas sexualidades.
Segundo RICE, FRIBERG e GAVRILETS (2012), “Quando as marcas epigenéticas são sexualmente dimórficas, sua herança transgeneracional deverá influenciar o desenvolvimento sexual”[2], o que nos leva a crer que essas modificações perpetuam de maneira constante nos corpos – e detalhe para qualquer higienista de plantão: é impossível detectar epigenética nos corpos, uma vez que ela pode aflorar em qualquer momento da vida.
Mas o ponto crucial também pode ser oriundo da ideia infantil de que sexualidades não-hétero sejam de certa forma uma “anomalia”, é aí que os críticos dessa visão se equivocam, pois toda modificação epigenética também é uma modificação natural (não só natural como transgeracional).
O conceito de “natural” e “aberrante” é um ponto muito sério a se discutir enquanto a sexualidade dos corpos, pois se discursado de maneira errada, esse ponto de vista parece apontar os dedos para pessoas não-hétero, o que é errado, uma vez que ser heterosexual também é algo epigenético.
Sim, a ciência é linda, porém hemos de manter nossos pés no chão e olhar a realidade… É impossível negar que a heterosexualidade também é um regime político, como nos ensinou Monique Wittig[3] a respeito da sociedade que nos cerca e cria uma compulsoriedade heteronormativa. E o que entender todos os conceitos postos acima e assimilar com a colocação de Wittig faz? Nos faz compreender que a sociedade criou apenas um padrão que possa ser denominado “natural” e o resto todo seria o “subversivo”, o “aberrante”, reforçando um tabu que há muito vem sido reafirmado com uma maquiagem obscena de “proteger a família e a espécie”. Parce-me que aqueles que se dispõe a desnaturalizar os comportamentos não-hétero tentando se basear na ciência, jogam a ciência no lixo quando lhes é apresentado toda a gama de possibilidades que as ações epigenéticas proporcionam aos corpos. Quando digo isso, me refiro à famosa Escala Kisney[4], desenvolvida pelo biólogo estadunidense Alfred Kisney, essa escala se dispõe a apresentar toda gama variante de sexualidade que os corpos podem adquirir, uma tabela que varia da heterosexualidade restrita até a homosexualidade restrita (isso para individuos que desenvolvem essa sexualidade, claro), passando por diversos níveis de bisexualidade, “muito frequentemente a Escala Kinsey é simplificada de forma exagerada prevendo apenas heterossexuais, bissexuais e homossexuais de acordo com a monossexualidade, onde temos apenas dois sexos: o macho e a fêmea. Em estudos posteriores, Alfred Kinsey e Wardell Pomeroy publicam os livros “Sexual Behavior in the Human Male” (1948) e “Sexual Behavior in the Human Female” (1953), introduzindo também os assexuais”.
Dado isso, preciso assumir: a lingua portuguesa no que tange a questão de gênero das palavras, é um lixo, pois ‘vira e mexe’ entrega de bandeija um prato repleto de preconceitos e confusões de nomenclaturas para que se proliferem as LGBTQfobias, talvez a “sensação do momento” seja a famigerada “Ideologia de Gênero”.
Mas o que é gênero? Em poucas palavras vou tentar explicar minha visão sobre “gênero” e assim, essa explicação irá servir de base para as observações posteriores (e para uma possível crítica póstuma, favor iniciá-la a partir da minha definição de gênero), vamos lá: Gênero é um sistema hierárquico desenvolvido de modo diferente por diferentes sociedades que implica na definição dos modos de agir dos indivíduos daquela sociedade, de forma que visa padronizá-los numa escala de subimissão onde, na maioria das vezes, o individuo “mulher” esteja a mercê dos interesses do individuo “homem”. É um termo desenvolvido única e exclusivamente para impor uma relação de poder sobre uma parcela da sociedade, gerando a desigualdade e assim a dominância. Ao indivíduo “mulher” são atribuídas características de cuidado, fragilidade, emotividade e leveza. Já ao indivíduo “homem” são atribuídas características de inteligência, força, controle emocional, agilidade e desejo sexual. Essa separação de características imprimem aos indivíduos aquilo que denominamos de “masculinidade” e “feminilidade”, ou “ser homem” e “ser mulher”, para que exista o homem e que ele seja o exemplo da superioridade, deve existir a mulher, o reflexo da subimissão e da fraqueza, criando um sistema que favoreça um em detrimento do outro.
Parece de tal maneira que essa minha visão é pessimista, mas prefiro chamá-la de realista, uma vez que observo isso dentro da minha sociedade altamente patriarcal, machista e heteronormativa.
“Gênero” é muito mais complexo do que essa definição em poucas linhas, mas para entender a crítica creio que seja o suficiente. O termo se desenvolveu ao longo do último século e passou de apenas uma outra palavra do dicionário feminista para algo que abrange diversas categorias, ainda mais agora com o conceito de “queer”[5], irei usá-lo mais adiante.
Mas então gênero, essa coisa socialmente construída, é uma ideologia? é uma forma doutrinatória? Bom, se pensarmos em “ideologia” no conceito marxista, isto é, algo que mascara a realidade (ou também um objeto, se pensarmos nos autores da Escola de Frankfourt) e concentra-se no caráter de relações de dominação, sim. Mas é possível apontá-la também como sinônimo de uma “visão de mundo”, um ideal. É preciso partirmos de algum lugar para entender a nomenclatura “ideologia de gênero” e um ponto interessante talvez seja o apontado por GONÇALVES e MELLO (2017), quando os autores demonstram que “esse termo é oriundo de um livro (The gender agenda), publicado pela jornalista católica estadunidense Dale O’Leary em 1997, com o objetivo de denunciar uma ‘concertação mundial voltada à destruição da família’. No livro, O’Leary culpa as feministas por trocar a palavra sexo por gênero para negarem as ‘diferenças naturais’ e promoverem a homossexualidade. Essa obra teria sido a grande fonte de sustentação dos argumentos que levaram ao debate sobre ‘gênero’ e ‘ideologia de gênero'”[6]. Nesse contexto, observa-se que a origem do termo parte do polo reacionário, “ideologia de gênero” surge como um discurso dos que não querem que essas questões sobre opressões sejam tratadas e a demonizam, como explica o artigo supracitado.

PARTE 2 – A CRÍTICA AO MOVIMENTO

Porém eu não vou falar aqui dos criadores do termo “ideologia de gênero”, vou falar dos membros do movimento LGBTQ que absorveram esse termo para si numa forma de tentar deslegitimar, ou, elencar naquilo que eu mais abomino dentro do movimento que é O BINGO DA OPRESSÃO.
Presenciei ao longo de minha vida pós-armário episódios envolvendo pessoas LGBTQ que me preocuparam de maneira gritante. Claro, eu nunca tive esse pensamento que tenho hoje, porém minha abertura ao diálogo é o que me proporcionou talvez um olhar mais abrangente – não que eu entenda todas as relações, por isso não me cabe julgar – e é isso que eu gostaria de exercitar daqui pra frente.
Por “bingo da opressão”, ironicamente critico o fato de pessoas LGBTQ estarem a todo momento numa certa competição para saber que é o/a mais oprimido/a/e, ora, existem dezenas de fatores que estão permeando nossa singularidade e elencá-los numa espécie de tabela da opressão é algo doentio. Coisas como sexo, gênero, raça, sexualidade, expressão de gênero, classe social, “vivência”, dentre outros, são socialmente impossíveis de definir quem “sofre mais” e é para isso que existem várias vertentes dentro do movimento (feminismo classista, feminismo negro, feminismo radical, transfeminismo, visibilidade lésbica, visibilidade bissexual, visibilidade não-binária, etc) e nenhuma é mais ou menos importante que a outra, suas lutas são diferentes e devem ser respeitadas.
Meu foco então vai para alguns casos onde vi que essa luta se utiliza de um ou outro termo ou discurso que deslegitima e/ou invisibiliza pessoas de dentro do movimento e tenta construir essa escala de opressão… Casos de pessoas homosexuais (gays e lésbicas) que de certa forma se “vangloriam” por terem relações apenas com pessoas cisgêneras[7] ou casos de pessoas que apontam que seu discurso que invisibiliza as questões T e Q[8] são “divergências teóricas”. Isso me lamenta profundamente, mas tenho que ser racional: primeiro é necessério, para fins argumentativos, separar o sujeito que discursa de seu argumento, pois o que combatemos são os argumentos, independente de quem os faz. Em segundo precisamos recolocar o sujeito para compreender a origem do argumento, sem julgar, pois só assim seremos capazes de entender de onde vem esse pensamento, essa “lógica” utilizada para atacar outros indivíduos do movimento (traumas do passado, local onde creceu, tipo de desenvolvimento teórico e prático do movimento, são as principais coisas a serem observadas). Esse exercício a longo prazo nos proporciona um certo “caleijamento” (essa palavra não existe) quando escutamos alguns absurdos dentro do movimento LGBTQ, porém ainda acho extremamente necessário criticar todo e qualquer ato de homolesbotransfobia ainda mais que surge da boca de LGBTQs.
Logo, de certa forma, estou aqui abertamente chamando alguns discursos de LGBTQs de “reacionários”[9] e retomo também o título desse texto, pois quem tem medo da ideologia de gênero? Em alguns discursos que ouço e leio por aí observo que as pessoas (principalmente L, G e B) reservam um espaço de suas vidas para criticar as outras classes (principalmente T e Q) e não é raridade encontrar a nomenclatura “ideologia de gênero” nesses discursos, como se essas pessoas tivessem apontando uma subversão inaceitável de outras classes que não respeitem a cis-normatividade imposta aos corpos.
Não sou um exemplo a ser seguido d’O Progressista, mas creio que o primeiro passo / que é observar sem julgar / eu faço até que bem. E quando vou para uma observação mais crítica desses discursos me encontro muitas vezes em um ninho quase odioso de pessoas que estão dispostas a tudo para colocar as opressões que sofrem como o símbolo de sua luta e essa luta como sendo aquela mais árdua. Não existe luta mais árdua, em momentos distintos lutamos por coisas distintas, não somos melhores ou piores que ninguém, nos cabe na verdade o oposto, olhar para nossos privilégios em determinados setores sociais, e nos policiarmos para não ferir a luta de outrem com nossa ignorância.
Esse é um pedido (falho em muitos postos, creio que o principal seja porque eu não consiga talvez alcançar o público que pretendo) para que mantenhamos mais nossas mentes abertas e que compreendamos as lutas das pessoas (e se possível, apoiemos). Não me considero um ativista, sei lá, de repente alguém pode me dizer “mas você é um ativista! Olha suas palavras!”, bom, esse rótulo não me cabe no momento, mas a defesa de todos e todas e todes do movimento me interessa e demonstrar como um sectarismo dentro de um movimento já marginalizado faz mau pra gente.
Não venho por meio deste pedir “união” e “devoção às lutas”, isso é impossível, porém creio que respeito e ceder mais espaço a quem nunca teve voz dentro do movimento LGBTQ é um gesto importante e necessário.

Vamos respeitar cada Lésbica, cada Bi cada Gay, cada Travesti, cada homem trans, mulher trans, Agênero, Não-Binário, cada Intersex, todo mundo. Temos que parar de parecer que somos o movimento que os conservadores gostam, aquele que se destrói por dentro. Se você faz isso, eu tenho pena de você.

NOTAS
[1] DVORSKY (2012);
[2] RICE, FRIBERG & GAVRILETS. “Homosexuality as a consequence of epigenetically canalized sexual development”, 2102, p. 352 [minha tradução]
[3] WITTIG (1980);
[4] “Quando enfatiza-se a continuidade das graduações entre os heterossexuais e homossexuais exclusivos ao longo da história, parece ser desejável desenvolver uma gama de classificações que podem ser amparadas em quantidades relativas de experiências e respostas heterossexuais e homossexuais em cada caso[…] Uma escala de sete categorias aproxima-se de representar as várias graduações que existem atualmente” (Kinsey, 1948);
[5] “Queer”, sinônimo de “excêntrico/extraordinário”, um conceito criado nos anos 80 que assumiu para si a palavra “queer” como representante das expressões de gênero que fogem da binariedade dos corpos;
[6] GONÇALVES e MELLO. “Gênero – vicissitudes de uma categoria e seus “problemas”, 2017 [editado]
[7] “cisgênero”, ou “cis”, é o termo utilizado para se referir a pessoas que possuem seus corpos sexuados em exata definição do seu gênero imposto, isto é, um sujeito que possui pênis e se identifica como homem é um “homem cis”
[8] “T” e “Q”, dentro da nomenclatura que optei por utilizar, referem-se a individuos Travestis e Transgêneros (T) e aqueles que se encaixam no quesito Queer (Q) [ver nota 5]
[9] por “reacionário”, quero falar daquilo que promove uma reação a determinado ato, muitas vezes progressista.

REFERÊNCIAS (em ordem cronológica do texto)

RICE, FRIBERG & GAVRILETS. “Homosexuality as a consequence of epigenetically canalized sexual development”, 2102. In. “The Quarterly review of biology Vol. 87”, Universidade de Chicago, 2012;

DAWOOD, BAILEY & MARTIN. “Genetic and enviromental influences on sexual orientation”, 2009. In “Handbook of behavior genetics”, Universidade da Pensilvânia, 2009;

DVORSKY, G. “Scientists claim that homosexuality is not genetic – but arises in the womb”, 2012. disponível aqui

WITTIG. “O pensamento hétero”, 1980.

ESCALA DE KISNEY, In Wikipédia. Disponível aqui

BUTLER, “Criticamente subversiva”, 2002.

GONÇALVES e MELLO. “Gênero – vicissitudes de uma categoria e seus ‘problemas’, 2017. In “Revista Ciência e Cultura Vol.69”, 2017.

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