QUEERMUSEU E OS LIBERAIS (pero no mucho)

Fico imaginando toda vez que atores sociais mainstream que reivindicam para si a bandeira do dito liberalismo (social) como conseguem dormir a noite sabendo que claramente traem o princípio ideológico que dizem seguir.

Liberdade, igualdade, fraternidade, os lemas da bandeira francesa na revolução sempre foram alvos de movimentos reacionários ao longo dos séculos. Não obstante, dos próprios membros que se dizem liberais – ou, “liberalismo pra todo mundo MENOS pra quem eu acho que é comunista”.

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Na realidade, essa crítica ao último ato promovido por “liberais” poderia ser expandida para qualquer momento em que aponta-se um incoerência gritante dentro de movimentos auto intitulados de “liberais” (ou livres). Mas já que o assunto está na crista da onda, vamos utilizá-lo para expor um pouco da incoerência do dito “liberal” brasileiro da era da pós verdade…

A exposição QueerMuseu, promovida pelo banco Santander, que acontecia já há um mês e estava prevista para acabar em outubro, no Rio Grande do Sul, foi alvo de um boicote dos ditos “liberais” na última semana, tanta pressão desse povo que o banco resolveu fechar as portas da exposição. Dentro das acusações do boicote, duas que vou citar com maior abertura: pedofilia (relações com menores de idade) e zoofilia (relações sexuais com animais);

Os ditos “liberais” acusaram a exposição de estarem promovendo/fazendo apologia a essas duas parafilias, mito detestáveis dentro dos padrões de nossa sociedade e com razão. Mas vejamos mais a fundo o que exatamente era criticado, pois quando o Santander fechou a exposição, pouco foi comemorado a respeito disso e sim, outra coisa que jajá aparece no texto…

A acusação de zoofilia referia-se a uma obra de Adriana Varejão, “Cenas do Interior”, de 1994. “Num esforço imenso de interpretação, eu consigo enxergar que a obra não faz apologia à zoofilia, pelo contrário, a obra representa cenas corriqueiras do interior do Brasil (‘interior’ como roça, ‘interior’ como secreto/escondido): sexo com animais, relações homoafetivas, etc.” (Otávio Pereira, via facebook)

 

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“Cenas do Interior”, Adriana Varejão, 1994

 

Porém para que uma discussão tome o rumo desejado por quem prega o ódio, basta apenas uma interpretação rasa e ignorante sobre a obra. Observa-se que a tática dos ditos “liberais” foi de repassar excertos dessa obra, separadamente, via internet, para todos aqueles que dizem defender a família e os bons costumes. Uma vez que essas imagens caem com o pretexto errado na internet, não leva muito tempo até uma revolta geral que crê veementemente que o Santander estaria promovendo a prática de zoofilia.

Em momento algum observou-se que os ditos “liberais” propuseram uma discussão a respeito da obra, que só de olhar já se mostra complexa, e é aí que entra a grande chave para entendermos essa revolta dos “liberais”, pois uma vez que essa exposição trata-se de uma exposição LGBTQ no Brasil, é sabido que esses ditos “liberais” são extremamente reacionários e conservadores nesse sentido – aí chegamos no ponto que eu explico o porque utilizar a palavra entre aspas, ora, os liberais brasileiros que seguem o ideal de liberdades individuais não criticaram a exposição pelo viés que os “liberais” criticaram…

Símbolo maior desse “liberalismo” brasileiro é o Movimento Brasil Livre (MBL). O partido se mostrou indignado para com a exposição e, quando disse aqui em cima no texto que a verdadeira ambição foi alcançada, não me referia ao fim de uma exposição que supostamente fazia apologia a parafilias e sim que os “liberais” estavam comemorando que uma pauta do movimento LGBTQ “mais de esquerda” foi dissolvida em prol de seu conservadorismo retórico, isto é, aquela velha história de que os “liberais” estão lutando contra a “agenda globalista-comunista” no país.

Existe dentro do MBL, um movimento de histeria coletiva que cega até os poucos liberais que lá se encontram de que “tudo que é de esquerda é ruim” e que, para angariar votos e alimentar sua massa de manobra que vêm se mostrando muito útil para o serviço nos últimos anos, flertam com ideias nada liberais. Uma mostra LGBTQ que faz críticas aos modos brasileiros de lidar com sexualidade e sexualização deveria ser aplaudida por liberais e não repudiada.

O outro ponto criticado pelos “liberais” que me proponho a citar é o da pedofilia. Acusar alguém ou algo de pedofilia no Brasil é tenebroso, pedofilia é um crime odiável aqui no Brasil – e deve ser mesmo. Justamente por isso, os “liberais” se utilizaram dessa falsa simetria para induzir quem caísse em sua lábia de que apresentar retratos de frases de efeito LGBTQs, como a popular “criança viada”, era como se fosse um estímulo à pedofilia. Um exemplo: nas palavras da conservadora e youtuber Paula Marisa, “não é a militância LGBT que se ofende com piadas com homossexuais? […] então, pela lógica […], esse jornalista que fez piada com homossexual é um homofóbico […] outro ponto é o seguinte, o que é ‘viado’? Viado é um homem que transa com outro homem […] uma ‘criança viada’ é sim incentivo à pedofilia, pois o contexto da palavra ‘viado’ se refere à sexualidade/ao ato sexual e criança que faz sexo está sendo vítima de pedofilia”.

 

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“Crianças Viadas”, Bia Leite, 2013

 

Paula Marisa se auto intitula conservadora, logo podemos utilizar seu vídeo para fazer essa analogia com os “liberais”, uma vez que essa é a lógica da retórica que se utiliza para associar quando coloca-se “criança” e “LGBTQ” na mesma oração. Uma retórica que não é nova e que vem para confundir e aplicar uma dita “lógica” inexistente, pois a afirmação é dada via uma análise extremamente rara e oportunista – e é aonde o MBL se apoia.

Toda essa analogia “movimento LGBTQ=pedofilia” morre quando entendido o contexto de “criança viada”, porém a brincadeira com as palavras deve ser feita com sutileza, uma vez que – infelizmente – a falta de conhecimento do povão não permite que algumas palavras como “viado” e “travesti” expressem seu real significado no contexto. A construção da expressão “criança viada” é oriunda de uma página (hoje inativa, mas você pode clicar aqui) com o mesmo nome que postava fotos de pessoas que, quando crianças, performavam e expressavam trejeitos que não se encaixavam na heteronormatividade – detalhe: fotos enviadas pelas próprias pessoas por livre e espontânea vontade -, não necessariamente que essas pessoas hoje sejam gays, lésbicas, bi, trans, travestis, não-binárias, etc. mas que o intuito da página era exaltar que essas performances e/ou traços de não-heteronormatividade são extremamente comuns em crianças e que é tudo bem ser assim.

Porém o pensamento “liberal” não enxerga dessa forma e flerta com o conservadorismo a esse respeito, uma vez que utiliza essas imagens para causar medo e revolta numa população – infelizmente – desinformada. E é aqui que se encaixa outra questão importante do ocorrido, pois o que quero dizer com esse texto não é que não deveria haver boicote – é o direito de livre expressão e manifestação dessas pessoas que se indignaram -, mas a forma que foi feito e a retórica utilizada, apoiados num partido que se intitula “liberal” e mancha o liberalismo é algo horrível, pois alimenta a imbecilidade coletiva e embaraça mais ainda as nomenclaturas e o léxico de palavras chave da disputa política.

Logo, a priori, é um absurdo vermos que essa censura à arte vem de indivíduos e grupos que não se dão ao trabalho de analisar a obra nem o/a artista. Parafraseando Alexandre Melo (vulgo “maestro Bogs”[e, youtuber por youtuber, a gente cita um mais engraçado/com o detalhe que, diferente do MBL, Bogs é mais liberal que os “liberais”]) “fica essa gente retardada batendo na tecla da ‘ideologia de gênero’; isso é um sofisma covarde para uma cambada de vagabundo homofóbico ficar tratando sua homofobia como se fosse uma coisa ‘intelectual’: ‘ah, olha só como eu sou politizado, eu luto contra a ideologia de gênero'”.

É realmente um absurdo essa pedofilia intelectual que esses grupos praticam.

FONTES:

matéria sobre o fechamento da mostra: http://veja.abril.com.br/blog/rio-grande-do-sul/apos-protesto-do-mbl-santander-fecha-exposicao-sobre-diversidade/

vídeo da Paula marisa (eu não queria dar ibope, mas preciso apontar as fontes): https://www.youtube.com/watch?v=dL-FhdVcC5w&t=622s

vídeo do Bogs: https://www.youtube.com/watch?v=FpOJ_DK36Do&t=309s

 

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