LINN DA QUEBRADA’S “PAJUBÁ” [REVIEW]

[Pajubá]: linguagem de resistência, construída a partir da inserção de palavras e expressões de origem africanas ocidentais. É usada principalmente por travestis e grande parte da comunidade LGBTQ

22154514_1953810541524175_4176049094701297706_n

Quando eu conheci Linn da Quebrada – não pessoalmente, uma pena -, algo ficou pairando na minha cabeça a respeito do funk que ela propunha, e por quê? Bom, mesmo gostando muito da batida do funk brasileiro, eu sempre achei ela muito plastificada e obsoleta… Inúmeros hits foram estrondosos e passaram sem deixar nada, seja de bom ou de ruim, naquele nicho onde foi mais difundido, sejam funks cantados por qualquer gênero.
O que fiquei encasquetado com Linn da Quebrada foi que havia algo em sua música que, mesmo com um palavreado um tanto pesado, era impactante e mexia comigo de tal forma que eu ficava com o refrão de “Enviadescer” na cabeça e me questionando e à minha masculinidade…
É, dentro da escrita de um texto algumas vezes deixamos vazar cenas do próximo episódio, mas o que realmente essa minha “introdução” pode significar é que Linn da Quebrada está muito longe de ser alguém que será esquecido rápido na cena na música brasileira, mesmo que, por um nicho bem reservado, seu novo álbum visual “Pajubá” é algo que vai mexer com a cabeça de você, seja LGBTQ ou um homem cis hétero.
Sim, “Pajubá” é um grito de liberdade e um recado explícito vindo das bixas pretas que entra na coluna vertebral e desmonta a masculinidade hegemônica; O que fiquei estupefacto enquanto assistia ao álbum visual foi que ele mexeu comigo tanto no sentido de entender que essa crítica era pra mim quanto de mim. Fiquei nesse limbo durante os pouco mais de quarenta minutos de música imaginando todos os relacionamentos do qual fiz parte e todas as vezes que algo relacionado ao meu gênero ou sexualidade foi posto à prova.
Segundo a própria Linn, “Pajubá é celebração e (re)existência. É sobre nossas vidas. É nossa”. Uma obra que boto a maior fé que fará muitxs se libertarem e quebrarem os armários e tantxs outrxs compreenderem as árduas e viscerais críticas ao cis-tema que hoje nos prejudica, nos mata e nos aprisiona em padrões estéticos e morais que de nada têm de natural…
E falando em natureza, foi isso que senti no àlbum visual, a grande maioria das filmagens feitas em meio a àrvores, rios, bambuzais, muito verde, muita pele e tons pastéis, um misto de natureza melancólica e libertação, mais como uma expressão artística abstrata de dança contemporânea do que um propósito exato de seguir um roteiro — atenção especial para os lindos planos-sequência nas filmagens. Linn explora a naturalidade de cada um/a de nós de uma maneira que paira entre o pesado e o suave, com movimentos bruscos e de uma leveza colossal e expressões faciais de quem atua marcantes. Se há algo a ser criticado de maneira ruim nessas filmagens, aponto particularmente para o excesso de desfoque em alguns momentos e alguns movimentos de câmera desnecessários, fora isso, fabuloso!
Cada música que escutava era um baque tremendo no meu peito, ouvi o álbum duas vezes seguidas, o primeiro assistindo os clipes e o segundo no Spotify acompanhando as letras e comecei a decifrar tudo que venho estudando no último ano sobre questões de gênero e sexualidade, como nosso mundo é muito, mas muito mais complexo do que achamos e na cabeça mesquinha de muitos de nós, fazê-lo de um lugar binário seria o mais fácil já que temos medo e preguiça de entendermos os corpos e os sujeitos… cada letra ataca a masculinidade hegemônica de uma maneira diferente, Linn se remete muito ao falocentrismo e à questão do pênis, como nos excertos “O lance é muito simples, não tem nenhum mistério: pode sair com o pau entre as pernas, acabou o seu império”, “‘Cê’ podia ter vários pinto, pinto gigante que bate na testa [..] mas só fala de piroca e grana, nem gasta tua saliva que a mim você não interessa” e “Ih, aí, o machão ficou com medo, mas pra quê quero sua pica se eu tenho todos esses dedos?“, dentro de uma linguagem mais comercial, ela coloca várias discussões teóricas que, mesmo com todo o esforço dos ativismos feministas, infelizmente muitas vezes não chegam aonde têm que chegar, Linn constrói uma ponte maravilhosa que linka esses dois universos de maneira absurdamente fantástica.
Outra grande crítica que as letras trazem é a crítica ao tabu do ânus, principalmente masculino, lugar onde, segundo muitas autoras que escrevem sobre masculinidades, é um ambiente quase que sagrado para o corpo masculino, a dominação inicia-se quando o homem decide ou não fazer algo com o ânus na relação sexual. Para essa reflexão, Linn junto com Mulher Pepita cantam “Dedo Nocué”, quatro minutos de uma libertação sexual que quebra com os tabus a respeito desse lugar sagrado de nossos corpos… “dedo no cu é bom, é tão gostoso”!
Observa-se também que a todo momento por todo o álbum, Linn dialoga sobre sua não-binariedade e como vê e é vista dependendo da categoria com quem ela trata, sua resposta é direta e reta a partir do meio do álbum “Queria saber quem foi o grande otário que saiu por aí falando que o mundo era binário”, ou seja, “eu não estou nem aí para o que o mundo pensa, eu vou performar o que eu desejo e vou ser o que eu quero!”, nas palavras de Linn “antes eu era viado, hoje eu sou travesti”.
Algo também muito interessante de se apontar no álbum não os nuânces e as passagens que ele nos proporciona, começando numa batida de rap dos anos 2000, entrando num funk eletrônico e terminando numa espécie de bolero-MPB, Linn vai mostrando suas facetas de modo a prender-nos escutando música por música até que ao fim, conta-nos a lenda da bicha esquisita, daquela que não é feia nem bonita, que sempre desejou ter uma vida promissora, mas que sabe que pra ser livre e feliz tem que ralar o cu, se foder.

Esse album vai pra toda bicha, todo viado, toda sapatão, tode queer, toda travesti, todx trans que sabe que a vida não é e nunca será fácil, mas que a vida fora do armário é digna e devemos batalhar por ela… sempre.

vlcsnap-2017-10-06-18h28m09s443

 

“Enviadesci, agora, macho-alfa, não tem mais pra onde fugir”.

Advertisements

QUEERMUSEU E OS LIBERAIS (pero no mucho)

Fico imaginando toda vez que atores sociais mainstream que reivindicam para si a bandeira do dito liberalismo (social) como conseguem dormir a noite sabendo que claramente traem o princípio ideológico que dizem seguir.

Liberdade, igualdade, fraternidade, os lemas da bandeira francesa na revolução sempre foram alvos de movimentos reacionários ao longo dos séculos. Não obstante, dos próprios membros que se dizem liberais – ou, “liberalismo pra todo mundo MENOS pra quem eu acho que é comunista”.

exposicao-queer-museu-20170911-002

Na realidade, essa crítica ao último ato promovido por “liberais” poderia ser expandida para qualquer momento em que aponta-se um incoerência gritante dentro de movimentos auto intitulados de “liberais” (ou livres). Mas já que o assunto está na crista da onda, vamos utilizá-lo para expor um pouco da incoerência do dito “liberal” brasileiro da era da pós verdade…

A exposição QueerMuseu, promovida pelo banco Santander, que acontecia já há um mês e estava prevista para acabar em outubro, no Rio Grande do Sul, foi alvo de um boicote dos ditos “liberais” na última semana, tanta pressão desse povo que o banco resolveu fechar as portas da exposição. Dentro das acusações do boicote, duas que vou citar com maior abertura: pedofilia (relações com menores de idade) e zoofilia (relações sexuais com animais);

Os ditos “liberais” acusaram a exposição de estarem promovendo/fazendo apologia a essas duas parafilias, mito detestáveis dentro dos padrões de nossa sociedade e com razão. Mas vejamos mais a fundo o que exatamente era criticado, pois quando o Santander fechou a exposição, pouco foi comemorado a respeito disso e sim, outra coisa que jajá aparece no texto…

A acusação de zoofilia referia-se a uma obra de Adriana Varejão, “Cenas do Interior”, de 1994. “Num esforço imenso de interpretação, eu consigo enxergar que a obra não faz apologia à zoofilia, pelo contrário, a obra representa cenas corriqueiras do interior do Brasil (‘interior’ como roça, ‘interior’ como secreto/escondido): sexo com animais, relações homoafetivas, etc.” (Otávio Pereira, via facebook)

 

20170911-adriana-varejao-queermuseu

“Cenas do Interior”, Adriana Varejão, 1994

 

Porém para que uma discussão tome o rumo desejado por quem prega o ódio, basta apenas uma interpretação rasa e ignorante sobre a obra. Observa-se que a tática dos ditos “liberais” foi de repassar excertos dessa obra, separadamente, via internet, para todos aqueles que dizem defender a família e os bons costumes. Uma vez que essas imagens caem com o pretexto errado na internet, não leva muito tempo até uma revolta geral que crê veementemente que o Santander estaria promovendo a prática de zoofilia.

Em momento algum observou-se que os ditos “liberais” propuseram uma discussão a respeito da obra, que só de olhar já se mostra complexa, e é aí que entra a grande chave para entendermos essa revolta dos “liberais”, pois uma vez que essa exposição trata-se de uma exposição LGBTQ no Brasil, é sabido que esses ditos “liberais” são extremamente reacionários e conservadores nesse sentido – aí chegamos no ponto que eu explico o porque utilizar a palavra entre aspas, ora, os liberais brasileiros que seguem o ideal de liberdades individuais não criticaram a exposição pelo viés que os “liberais” criticaram…

Símbolo maior desse “liberalismo” brasileiro é o Movimento Brasil Livre (MBL). O partido se mostrou indignado para com a exposição e, quando disse aqui em cima no texto que a verdadeira ambição foi alcançada, não me referia ao fim de uma exposição que supostamente fazia apologia a parafilias e sim que os “liberais” estavam comemorando que uma pauta do movimento LGBTQ “mais de esquerda” foi dissolvida em prol de seu conservadorismo retórico, isto é, aquela velha história de que os “liberais” estão lutando contra a “agenda globalista-comunista” no país.

Existe dentro do MBL, um movimento de histeria coletiva que cega até os poucos liberais que lá se encontram de que “tudo que é de esquerda é ruim” e que, para angariar votos e alimentar sua massa de manobra que vêm se mostrando muito útil para o serviço nos últimos anos, flertam com ideias nada liberais. Uma mostra LGBTQ que faz críticas aos modos brasileiros de lidar com sexualidade e sexualização deveria ser aplaudida por liberais e não repudiada.

O outro ponto criticado pelos “liberais” que me proponho a citar é o da pedofilia. Acusar alguém ou algo de pedofilia no Brasil é tenebroso, pedofilia é um crime odiável aqui no Brasil – e deve ser mesmo. Justamente por isso, os “liberais” se utilizaram dessa falsa simetria para induzir quem caísse em sua lábia de que apresentar retratos de frases de efeito LGBTQs, como a popular “criança viada”, era como se fosse um estímulo à pedofilia. Um exemplo: nas palavras da conservadora e youtuber Paula Marisa, “não é a militância LGBT que se ofende com piadas com homossexuais? […] então, pela lógica […], esse jornalista que fez piada com homossexual é um homofóbico […] outro ponto é o seguinte, o que é ‘viado’? Viado é um homem que transa com outro homem […] uma ‘criança viada’ é sim incentivo à pedofilia, pois o contexto da palavra ‘viado’ se refere à sexualidade/ao ato sexual e criança que faz sexo está sendo vítima de pedofilia”.

 

xexpo-queermuseu.jpg.pagespeed.ic.8utLYKkWdW

“Crianças Viadas”, Bia Leite, 2013

 

Paula Marisa se auto intitula conservadora, logo podemos utilizar seu vídeo para fazer essa analogia com os “liberais”, uma vez que essa é a lógica da retórica que se utiliza para associar quando coloca-se “criança” e “LGBTQ” na mesma oração. Uma retórica que não é nova e que vem para confundir e aplicar uma dita “lógica” inexistente, pois a afirmação é dada via uma análise extremamente rara e oportunista – e é aonde o MBL se apoia.

Toda essa analogia “movimento LGBTQ=pedofilia” morre quando entendido o contexto de “criança viada”, porém a brincadeira com as palavras deve ser feita com sutileza, uma vez que – infelizmente – a falta de conhecimento do povão não permite que algumas palavras como “viado” e “travesti” expressem seu real significado no contexto. A construção da expressão “criança viada” é oriunda de uma página (hoje inativa, mas você pode clicar aqui) com o mesmo nome que postava fotos de pessoas que, quando crianças, performavam e expressavam trejeitos que não se encaixavam na heteronormatividade – detalhe: fotos enviadas pelas próprias pessoas por livre e espontânea vontade -, não necessariamente que essas pessoas hoje sejam gays, lésbicas, bi, trans, travestis, não-binárias, etc. mas que o intuito da página era exaltar que essas performances e/ou traços de não-heteronormatividade são extremamente comuns em crianças e que é tudo bem ser assim.

Porém o pensamento “liberal” não enxerga dessa forma e flerta com o conservadorismo a esse respeito, uma vez que utiliza essas imagens para causar medo e revolta numa população – infelizmente – desinformada. E é aqui que se encaixa outra questão importante do ocorrido, pois o que quero dizer com esse texto não é que não deveria haver boicote – é o direito de livre expressão e manifestação dessas pessoas que se indignaram -, mas a forma que foi feito e a retórica utilizada, apoiados num partido que se intitula “liberal” e mancha o liberalismo é algo horrível, pois alimenta a imbecilidade coletiva e embaraça mais ainda as nomenclaturas e o léxico de palavras chave da disputa política.

Logo, a priori, é um absurdo vermos que essa censura à arte vem de indivíduos e grupos que não se dão ao trabalho de analisar a obra nem o/a artista. Parafraseando Alexandre Melo (vulgo “maestro Bogs”[e, youtuber por youtuber, a gente cita um mais engraçado/com o detalhe que, diferente do MBL, Bogs é mais liberal que os “liberais”]) “fica essa gente retardada batendo na tecla da ‘ideologia de gênero’; isso é um sofisma covarde para uma cambada de vagabundo homofóbico ficar tratando sua homofobia como se fosse uma coisa ‘intelectual’: ‘ah, olha só como eu sou politizado, eu luto contra a ideologia de gênero'”.

É realmente um absurdo essa pedofilia intelectual que esses grupos praticam.

FONTES:

matéria sobre o fechamento da mostra: http://veja.abril.com.br/blog/rio-grande-do-sul/apos-protesto-do-mbl-santander-fecha-exposicao-sobre-diversidade/

vídeo da Paula marisa (eu não queria dar ibope, mas preciso apontar as fontes): https://www.youtube.com/watch?v=dL-FhdVcC5w&t=622s

vídeo do Bogs: https://www.youtube.com/watch?v=FpOJ_DK36Do&t=309s

 

QUEM TEM MEDO DA IDEOLOGIA DE GÊNERO?

0sexo dos anjos

Recorte da obra Palla dello spedalingo, de Rosso Fiorentino, 1518; precisamos parar de discutir o sexo dos anjos dentro do movimento LGBTQ

 

Queira você ou não, interlaçar os estudos biopsicossociais a respeito de nós é o mínimo necessário antes de começarmos a brincar de donos/as/es da verdade. Digo isso para qualquer pessoa independente de posições políticas ou de ideologia, visto que, para termos base para falar sobre algo sem parecermos rasos, orientação e vontade de saber são primordiais.
Dividi esse texto em duas partes, a primeira vai tratar apenas das minhas experiências nas pesquisas sobre sexualidade e gênero de uma forma superficial porém que basta para que você, leitor, compreenda quando eu utilizar as palavras “sexualidade”, “gênero”, “ideologia de gênero”, etc; Como não sou membro de nenhum movimento LGBTQ real-oficial, busquei por meio autônomo todo esse conhecimento, minha proposta aqui não é levantar bandeira e sim criticar o movimento por suas demonizações de certos indivíduos.

PARTE 1 – EXPLICANDO MINHA VISÃO DAS NOMENCLATURAS

No que tange a sexualidade humana, de uns tempos pra cá venho tendo uma posição bem definida, guardada as críticas à binaridade que a ciência moderna não deixou de lado ainda, é impossível negar que esses estudos nos encaminham para uma resposta mais objetiva – menos uma “verdade factual” abstrata que defende algo que aquele ou este ponto de vista, ora, sempre haverá contestação e esse é o mais divertido na ciência. Porém negar as bases biológicas é algo que ser humano em completa sanidade não deveria fazer.
Ao meu ver, entendo a sexualidade humana como uma questão epigenética[1], que por sua vez é muito confundida entre alguns e algumas “especialistas” oriundos das Ciências Sociais com algo na formação cromossômica. Seria um absurdo e quem já me ouviu dizer que “homossexualidade não é genética” com certeza ficou espantado a certo ponto, uma vez que só essa frase, solta ao sabor dos ventos e da maldade dos indivíduos, pode parecer um discurso que tente legitimizar certa homofobia ou algo do tipo, não. As matrizes epigenéticas são algo complexo até para mim que fui atrás, imagina para quem escuta o termo pela primeira vez? Me lembro de uma aula de uma matéria chamada “Antropologia e Estudos de Gênero” onde a discussão se voltou para as evidências científicas da sexualidade humana e eu expus meus argumentos, tres quartos da classe ficaram boquiabertos e alguns acharam um absurdo querer responder essa questão via um argumento científico-biológico, enfim.
A homosexualidade, nesse ponto de vista, é diferente em corpos femininos e masculinos – e é aí que as pessoas talvez façam confusão, pois quando se expõe a genética para explicar a epigenética, primeiro é preciso diferenciar os corpos de sexos binários para depois explicar suas sexualidades.
Segundo RICE, FRIBERG e GAVRILETS (2012), “Quando as marcas epigenéticas são sexualmente dimórficas, sua herança transgeneracional deverá influenciar o desenvolvimento sexual”[2], o que nos leva a crer que essas modificações perpetuam de maneira constante nos corpos – e detalhe para qualquer higienista de plantão: é impossível detectar epigenética nos corpos, uma vez que ela pode aflorar em qualquer momento da vida.
Mas o ponto crucial também pode ser oriundo da ideia infantil de que sexualidades não-hétero sejam de certa forma uma “anomalia”, é aí que os críticos dessa visão se equivocam, pois toda modificação epigenética também é uma modificação natural (não só natural como transgeracional).
O conceito de “natural” e “aberrante” é um ponto muito sério a se discutir enquanto a sexualidade dos corpos, pois se discursado de maneira errada, esse ponto de vista parece apontar os dedos para pessoas não-hétero, o que é errado, uma vez que ser heterosexual também é algo epigenético.
Sim, a ciência é linda, porém hemos de manter nossos pés no chão e olhar a realidade… É impossível negar que a heterosexualidade também é um regime político, como nos ensinou Monique Wittig[3] a respeito da sociedade que nos cerca e cria uma compulsoriedade heteronormativa. E o que entender todos os conceitos postos acima e assimilar com a colocação de Wittig faz? Nos faz compreender que a sociedade criou apenas um padrão que possa ser denominado “natural” e o resto todo seria o “subversivo”, o “aberrante”, reforçando um tabu que há muito vem sido reafirmado com uma maquiagem obscena de “proteger a família e a espécie”. Parce-me que aqueles que se dispõe a desnaturalizar os comportamentos não-hétero tentando se basear na ciência, jogam a ciência no lixo quando lhes é apresentado toda a gama de possibilidades que as ações epigenéticas proporcionam aos corpos. Quando digo isso, me refiro à famosa Escala Kisney[4], desenvolvida pelo biólogo estadunidense Alfred Kisney, essa escala se dispõe a apresentar toda gama variante de sexualidade que os corpos podem adquirir, uma tabela que varia da heterosexualidade restrita até a homosexualidade restrita (isso para individuos que desenvolvem essa sexualidade, claro), passando por diversos níveis de bisexualidade, “muito frequentemente a Escala Kinsey é simplificada de forma exagerada prevendo apenas heterossexuais, bissexuais e homossexuais de acordo com a monossexualidade, onde temos apenas dois sexos: o macho e a fêmea. Em estudos posteriores, Alfred Kinsey e Wardell Pomeroy publicam os livros “Sexual Behavior in the Human Male” (1948) e “Sexual Behavior in the Human Female” (1953), introduzindo também os assexuais”.
Dado isso, preciso assumir: a lingua portuguesa no que tange a questão de gênero das palavras, é um lixo, pois ‘vira e mexe’ entrega de bandeija um prato repleto de preconceitos e confusões de nomenclaturas para que se proliferem as LGBTQfobias, talvez a “sensação do momento” seja a famigerada “Ideologia de Gênero”.
Mas o que é gênero? Em poucas palavras vou tentar explicar minha visão sobre “gênero” e assim, essa explicação irá servir de base para as observações posteriores (e para uma possível crítica póstuma, favor iniciá-la a partir da minha definição de gênero), vamos lá: Gênero é um sistema hierárquico desenvolvido de modo diferente por diferentes sociedades que implica na definição dos modos de agir dos indivíduos daquela sociedade, de forma que visa padronizá-los numa escala de subimissão onde, na maioria das vezes, o individuo “mulher” esteja a mercê dos interesses do individuo “homem”. É um termo desenvolvido única e exclusivamente para impor uma relação de poder sobre uma parcela da sociedade, gerando a desigualdade e assim a dominância. Ao indivíduo “mulher” são atribuídas características de cuidado, fragilidade, emotividade e leveza. Já ao indivíduo “homem” são atribuídas características de inteligência, força, controle emocional, agilidade e desejo sexual. Essa separação de características imprimem aos indivíduos aquilo que denominamos de “masculinidade” e “feminilidade”, ou “ser homem” e “ser mulher”, para que exista o homem e que ele seja o exemplo da superioridade, deve existir a mulher, o reflexo da subimissão e da fraqueza, criando um sistema que favoreça um em detrimento do outro.
Parece de tal maneira que essa minha visão é pessimista, mas prefiro chamá-la de realista, uma vez que observo isso dentro da minha sociedade altamente patriarcal, machista e heteronormativa.
“Gênero” é muito mais complexo do que essa definição em poucas linhas, mas para entender a crítica creio que seja o suficiente. O termo se desenvolveu ao longo do último século e passou de apenas uma outra palavra do dicionário feminista para algo que abrange diversas categorias, ainda mais agora com o conceito de “queer”[5], irei usá-lo mais adiante.
Mas então gênero, essa coisa socialmente construída, é uma ideologia? é uma forma doutrinatória? Bom, se pensarmos em “ideologia” no conceito marxista, isto é, algo que mascara a realidade (ou também um objeto, se pensarmos nos autores da Escola de Frankfourt) e concentra-se no caráter de relações de dominação, sim. Mas é possível apontá-la também como sinônimo de uma “visão de mundo”, um ideal. É preciso partirmos de algum lugar para entender a nomenclatura “ideologia de gênero” e um ponto interessante talvez seja o apontado por GONÇALVES e MELLO (2017), quando os autores demonstram que “esse termo é oriundo de um livro (The gender agenda), publicado pela jornalista católica estadunidense Dale O’Leary em 1997, com o objetivo de denunciar uma ‘concertação mundial voltada à destruição da família’. No livro, O’Leary culpa as feministas por trocar a palavra sexo por gênero para negarem as ‘diferenças naturais’ e promoverem a homossexualidade. Essa obra teria sido a grande fonte de sustentação dos argumentos que levaram ao debate sobre ‘gênero’ e ‘ideologia de gênero'”[6]. Nesse contexto, observa-se que a origem do termo parte do polo reacionário, “ideologia de gênero” surge como um discurso dos que não querem que essas questões sobre opressões sejam tratadas e a demonizam, como explica o artigo supracitado.

PARTE 2 – A CRÍTICA AO MOVIMENTO

Porém eu não vou falar aqui dos criadores do termo “ideologia de gênero”, vou falar dos membros do movimento LGBTQ que absorveram esse termo para si numa forma de tentar deslegitimar, ou, elencar naquilo que eu mais abomino dentro do movimento que é O BINGO DA OPRESSÃO.
Presenciei ao longo de minha vida pós-armário episódios envolvendo pessoas LGBTQ que me preocuparam de maneira gritante. Claro, eu nunca tive esse pensamento que tenho hoje, porém minha abertura ao diálogo é o que me proporcionou talvez um olhar mais abrangente – não que eu entenda todas as relações, por isso não me cabe julgar – e é isso que eu gostaria de exercitar daqui pra frente.
Por “bingo da opressão”, ironicamente critico o fato de pessoas LGBTQ estarem a todo momento numa certa competição para saber que é o/a mais oprimido/a/e, ora, existem dezenas de fatores que estão permeando nossa singularidade e elencá-los numa espécie de tabela da opressão é algo doentio. Coisas como sexo, gênero, raça, sexualidade, expressão de gênero, classe social, “vivência”, dentre outros, são socialmente impossíveis de definir quem “sofre mais” e é para isso que existem várias vertentes dentro do movimento (feminismo classista, feminismo negro, feminismo radical, transfeminismo, visibilidade lésbica, visibilidade bissexual, visibilidade não-binária, etc) e nenhuma é mais ou menos importante que a outra, suas lutas são diferentes e devem ser respeitadas.
Meu foco então vai para alguns casos onde vi que essa luta se utiliza de um ou outro termo ou discurso que deslegitima e/ou invisibiliza pessoas de dentro do movimento e tenta construir essa escala de opressão… Casos de pessoas homosexuais (gays e lésbicas) que de certa forma se “vangloriam” por terem relações apenas com pessoas cisgêneras[7] ou casos de pessoas que apontam que seu discurso que invisibiliza as questões T e Q[8] são “divergências teóricas”. Isso me lamenta profundamente, mas tenho que ser racional: primeiro é necessério, para fins argumentativos, separar o sujeito que discursa de seu argumento, pois o que combatemos são os argumentos, independente de quem os faz. Em segundo precisamos recolocar o sujeito para compreender a origem do argumento, sem julgar, pois só assim seremos capazes de entender de onde vem esse pensamento, essa “lógica” utilizada para atacar outros indivíduos do movimento (traumas do passado, local onde creceu, tipo de desenvolvimento teórico e prático do movimento, são as principais coisas a serem observadas). Esse exercício a longo prazo nos proporciona um certo “caleijamento” (essa palavra não existe) quando escutamos alguns absurdos dentro do movimento LGBTQ, porém ainda acho extremamente necessário criticar todo e qualquer ato de homolesbotransfobia ainda mais que surge da boca de LGBTQs.
Logo, de certa forma, estou aqui abertamente chamando alguns discursos de LGBTQs de “reacionários”[9] e retomo também o título desse texto, pois quem tem medo da ideologia de gênero? Em alguns discursos que ouço e leio por aí observo que as pessoas (principalmente L, G e B) reservam um espaço de suas vidas para criticar as outras classes (principalmente T e Q) e não é raridade encontrar a nomenclatura “ideologia de gênero” nesses discursos, como se essas pessoas tivessem apontando uma subversão inaceitável de outras classes que não respeitem a cis-normatividade imposta aos corpos.
Não sou um exemplo a ser seguido d’O Progressista, mas creio que o primeiro passo / que é observar sem julgar / eu faço até que bem. E quando vou para uma observação mais crítica desses discursos me encontro muitas vezes em um ninho quase odioso de pessoas que estão dispostas a tudo para colocar as opressões que sofrem como o símbolo de sua luta e essa luta como sendo aquela mais árdua. Não existe luta mais árdua, em momentos distintos lutamos por coisas distintas, não somos melhores ou piores que ninguém, nos cabe na verdade o oposto, olhar para nossos privilégios em determinados setores sociais, e nos policiarmos para não ferir a luta de outrem com nossa ignorância.
Esse é um pedido (falho em muitos postos, creio que o principal seja porque eu não consiga talvez alcançar o público que pretendo) para que mantenhamos mais nossas mentes abertas e que compreendamos as lutas das pessoas (e se possível, apoiemos). Não me considero um ativista, sei lá, de repente alguém pode me dizer “mas você é um ativista! Olha suas palavras!”, bom, esse rótulo não me cabe no momento, mas a defesa de todos e todas e todes do movimento me interessa e demonstrar como um sectarismo dentro de um movimento já marginalizado faz mau pra gente.
Não venho por meio deste pedir “união” e “devoção às lutas”, isso é impossível, porém creio que respeito e ceder mais espaço a quem nunca teve voz dentro do movimento LGBTQ é um gesto importante e necessário.

Vamos respeitar cada Lésbica, cada Bi cada Gay, cada Travesti, cada homem trans, mulher trans, Agênero, Não-Binário, cada Intersex, todo mundo. Temos que parar de parecer que somos o movimento que os conservadores gostam, aquele que se destrói por dentro. Se você faz isso, eu tenho pena de você.

NOTAS
[1] DVORSKY (2012);
[2] RICE, FRIBERG & GAVRILETS. “Homosexuality as a consequence of epigenetically canalized sexual development”, 2102, p. 352 [minha tradução]
[3] WITTIG (1980);
[4] “Quando enfatiza-se a continuidade das graduações entre os heterossexuais e homossexuais exclusivos ao longo da história, parece ser desejável desenvolver uma gama de classificações que podem ser amparadas em quantidades relativas de experiências e respostas heterossexuais e homossexuais em cada caso[…] Uma escala de sete categorias aproxima-se de representar as várias graduações que existem atualmente” (Kinsey, 1948);
[5] “Queer”, sinônimo de “excêntrico/extraordinário”, um conceito criado nos anos 80 que assumiu para si a palavra “queer” como representante das expressões de gênero que fogem da binariedade dos corpos;
[6] GONÇALVES e MELLO. “Gênero – vicissitudes de uma categoria e seus “problemas”, 2017 [editado]
[7] “cisgênero”, ou “cis”, é o termo utilizado para se referir a pessoas que possuem seus corpos sexuados em exata definição do seu gênero imposto, isto é, um sujeito que possui pênis e se identifica como homem é um “homem cis”
[8] “T” e “Q”, dentro da nomenclatura que optei por utilizar, referem-se a individuos Travestis e Transgêneros (T) e aqueles que se encaixam no quesito Queer (Q) [ver nota 5]
[9] por “reacionário”, quero falar daquilo que promove uma reação a determinado ato, muitas vezes progressista.

REFERÊNCIAS (em ordem cronológica do texto)

RICE, FRIBERG & GAVRILETS. “Homosexuality as a consequence of epigenetically canalized sexual development”, 2102. In. “The Quarterly review of biology Vol. 87”, Universidade de Chicago, 2012;

DAWOOD, BAILEY & MARTIN. “Genetic and enviromental influences on sexual orientation”, 2009. In “Handbook of behavior genetics”, Universidade da Pensilvânia, 2009;

DVORSKY, G. “Scientists claim that homosexuality is not genetic – but arises in the womb”, 2012. disponível aqui

WITTIG. “O pensamento hétero”, 1980.

ESCALA DE KISNEY, In Wikipédia. Disponível aqui

BUTLER, “Criticamente subversiva”, 2002.

GONÇALVES e MELLO. “Gênero – vicissitudes de uma categoria e seus ‘problemas’, 2017. In “Revista Ciência e Cultura Vol.69”, 2017.

REVOLUÇÃO E REACIONARISMO – O CAPITAL CONTRA A VENEZUELA

“Um dia histórico esse da Constituinte” – Nicolás Maduro, presidente da Venezuela (30 de julho de 2017)

Postei esses dias na minha página pessoal do facebook a seguinte, rápida e singela frase:

“A burguesia que está aí hoje é a que invadiu palácios, queimou, explodiu, cortou cabeças de homens mulheres e crianças para aniquilar o sistema monárquico… Essa mesma burguesia hoje, diz que as revoltas e tentativas de derrubá-la são atos ‘terroristas’.
Ninguém cede o poder de graça, para haver revolução tem que haver luta”.

Essa frase, para um/a bom observador/a, logicamente resume em poucas palavras minha posição a respeito do que vem ocorrendo com o governo de Maduro – que, salvo proporções, não é um Chávez (assim como Stalin não era um Lênin) – na Venezuela, o país do momento dos ataques midiáticos que vêm, com sucesso, transformando a opinião pública aos moldes imperialistas e acusando o governo de ser uma ditadura sanguinária e antidemocrática.

O que vem acontecendo com as mudanças do governo venezuelano que, após a votação do último dia 30, decidiu por convocar uma assembleia constituinte¹ é uma jogada política, ao meu ver, de afronta ao sistema entreguista latino-americano, uma jogada que mantém a soberania do país nos trilhos e que impõe a oposição um contragolpe constitucional, isto é, a convocação de uma Constituinte pelo presidente da república está resguardada na CF da Venezuela²(art. 348), o que dá legitimidade à Maduro de fazer o que fez. Quem discorda, é politicamente, mas do ponto de vista legal, Maduro poderia ter convocado a Assembleia. Essa é uma decisão que se toma de acordo com o momento político do país.

De acordo com Igor Fuser, professor do curso de Relações Internacionais da UFABC, em entrevista ao Jornal da Record no dia 31 de julho, “Essa assembleia foi convocada diante de uma situação de crise econômica e política do país, de maneira que os poderes do Estado não se entendem. O legislativo declarou ‘guerra’ ao executivo e foi colocado fora da lei pelo judiciário, que não cumpriu algumas normas que deveria cumprir. Isso gera uma  situação de ‘paralisia do Estado’, as leis vigentes na Venezuela  não dão conta de um impasse dessa magnitude”.

O que o governo de Maduro fez simplesmente foi chamar o povo para eleger seus representantes que irão decidir o futuro do país, o que é a própria essência da democracia. bem diferente do que houve em 2016 no Brasil, o governo venezuelano chamou o povo para decidir sobre como tocar o país e é o povo que dá legitimidade ao governo.

Por mais que eu não seja um exímio fã do aparato Estatal, o julgo útil quando se trata de proteger a população do Capital e, por mais que o Estado e o Capital muitas vezes andem de mãos dadas, sem o Estado, o Capital tomaria mais conta do mundo do que já toma. Um Estado que seja gerenciado pelo  povo e contra a ordem do Capital, por mais que seja odiado, é mais digno e democrático do que um Estado que adota uma economia de livre mercado – mas deixemos esse diálogo para outro texto.

Por hora vale ressaltar a posição segundo o bombardeio reacionário vindo do Brasil a respeito do contragolpe venezuelano…. Voltemos a 2016 quando o congresso aplicou, sem provas, o golpe de Estado de destituiu do cargo a presidenta Dilma Rousseff. De lá pra cá, pudemos observar os setores que antes eram oposição trabalhando juntamente à mídia para minar toda a esquerda brasileira, primeiro, nos colocando no mesmo “balaio”, por assim dizer… Petistas, Psolistas, Pecebistas, Comunistas e Anarquistas sendo tratados como um só e demonizados mais uma vez na história brasileira como “terroristas” e antidemocráticos. Enfim, esse discurso, que não é novo, agora se volta para nossos vizinhos venezuelanos, uma vez que nosso país emitiu uma nota de repúdio à convocação dessa Constituinte, não respeitando a CF da Venezuela, muito menos sua soberania nacional. À gosto dos EUA, o governo Temer se diz contra o que vem ocorrendo e a mídia nativa o apoia quando escreve e reescreve nos jornais diários que o que os venezuelanos vivem é uma ditadura sanguinária.

Talvez agora possamos voltar um pouco ao meu post no facebook, pois para alguém que perceba a lógica, entende-se que apoiar a Venezuela é apoiar a revolução e, não sei quem disse a alguns lideres de partidos brasileiros que essa revolução seria “pacífica” ou algo parecido. Apoiar a Venezuela não é necessariamente apoiar uma matança, mas entender que haverá resistência da burguesia, que não vai entregar o poder de graça, assim como esta não arrancou a monarquia do poder no “por favor, obrigado”. Apoiar revoluções é apoiar revoluções e não criticar só por que “a revolução não foi do jeito que eu quis” e além disso, é cobrar do povo venezuelano que participe das ações do Estado para que este não se transforme, aí sim, numa ditadura sanguinária e que este se volte a reerguer o país com soberania e aos moldes do que povo mais deseja.

Iremos ler e ouvir ainda muitos discursos reacionários vindo da esquerda e da direita ainda a respeito da democracia venezuelana, mas creio que quem deseja a revolução pelo poder popular deve compreender que o que vem acontecendo nesse país é um forte indicio de que um futuro pode ser possível sem uma manutenção exaustiva do grande Capital.

venezuela

 

AH, O DIREITO BURGUÊS

moro-diz-que-nova-prisao-de-leo-pinheiro-nao-tem-relacao-com-acordo-de-d

O direito burguês, aquele oriundo das regras desenvolvidas pela sociedade, a mesma sociedade que assinou lá atrás aquele pacto para conviver em harmonia, sabe?
O direito burguês que rege nossa sociedade ocidental e, mais especificamente – para não ofender os países ocidentais onde o direito também é justo -, nosso Brasil em eras de pós-verdade. Que por muitos anos se revestiu com o mantra de ser aquilo que separaria os meninos dos homens e garantiria nosso convívio “saudável”.
O direito burguês que, ao menos em uma grande maioria de países do ocidente moderno, está baseado no princípio da presunção de inocência. E o que nós, povo metido a besta, fizemos, há muito tempo – alguns dirão que nunca tivemos – …? Jogamos este na lata do lixo, decidimos agir, num intervalo de três anos, politicamente quando escancaradamente – e nos laudos -, réus participavam de um processo jurídico.
A queda dos dois símbolos do maior partido de esquerda (de “esquerda”) do país. Os fogos de uma elite movidos pelo astuto pensamento de uma Classe Média Branca. “Já estamos cansados de ouvir isso!” “Golpe? Perseguição política?! balela! A-c-e-i-t-e-m, petistas, que dói menos! Seus íderes corruptos julgados! Ela impichada e ele vai pra cadeia (?)!”

Ah, o direito burguês que nos fez acreditar que poderia ser diferente, que poderiam seguir a lei. Já não a seguem com indivíduos de menor expressão todos os dias nas periferias desse brasilzão, poxa! Por que seria diferente com aqueles que, a bem da verdade, para o pensamento da Classe Média, são a periferia, são os pobres que chegaram lá e deram algum sustento para outros pobres, no popular: “para que o filho da empregada esteja na mesma universidade da filha da patroa”.
Ora, esse direito burguês sabe enganar direitinho, ein?! Me fez de bobo, nos fez de bobo (?)

É nessa situação cabulosa que nos encontramos que lembramos que o direito burguês por muitas vezes serve à classe burguesa e não a nós, e não aos burgueses que ousam trair seu pensamento de classe, esse direito não nos pertence.
Sem provas, com convicção; isso basta dentro do nosso brasilzão.

Não, a sapiência não vence a malícia.

“COMUNISMO NÃO!”, UM TEXTO NECESSÁRIO

É com esse grito de ordem que podemos resumir a situação do país nesses últimos três anos e meio – quiçá antes, mas não possuo idade o suficiente para lembrar de estar prestando atenção nisso, até porque, sendo bem honesto, fiz o “movimento contrário” da maioria dos brasileiros, indo da direita para a esquerda. O país voltou a discutir a legitimidade do sistema idealizado por Marx e Engels, oriundo de uma vida de pesquisas e obras de leitura pesada e cansativa, escritos e mais escritos e tudo o que vejo os marxistas acadêmicos e militantes mais cultos falando é “parece que de nada adiantou”. Ora, a população leiga dificilmente pega uma obra de Marx e Engels, nem mesmo O Manifesto Comunista, livrinho que é possível de ser lido em uma tarde, para analisar na fonte aquilo que critica.

Essa infeliz ignorância é o que dá espaço para discursos absurdos e sensacionalistas, apaixonantes e convincentes de que o comunismo é o próprio demônio travestido de ideologia perversa. O que gera na população um medo irrefreável de que o país se torne comunista (isso claro, excluindo os lunáticos que ousam dizer que outrora o Brasil foi comunista) ou algo do gênero. Essas pessoas se apegam num discurso anticomunista que foi desenvolvido com cautela pelos setores que detinham – e até hoje detém – as propriedades privadas dos meios de produção.

Uma maneira bacana e menos pesada de entender como foi construído esse ideal anticomunista no país está na obra de João Paulo da Silva, o livro Comunismo Não! A influência do jornal “Correio de São Carlos” na construção do anticomunismo no município entre 1934 e 64, de 2010, da editora da Fundação Pró-Memória de São Carlos. Uma monografia que busca em três capítulos, desvendar o desenvolvimento desse ideal de que o comunismo é o método mais nefasto que poderia controlar nossas vidas.

Silva divide sua obra em explicar o surgimento do discurso – oriundo dos estadunidenses -, mostrar como ele é aplicado no Brasil – a partir de quatro pilares, o anticomunismo católico, o anticomunismo nacionalista, o anticomunismo liberal, o anticomunismo trabalhista e o anticomunismo de esquerda – e a construção do imaginário anticomunista na cidade de São Carlos – SP.

Dissertei a respeito das duas primeiras páginas num artigo não oficial sobre “Os pilares do anticomunismo no Brasil”, confira tanto o PDF (clicando aqui) quanto a obra de Silva – o único problema talvez seja a dificuldade de encontra-la, só achei uma na Biblioteca Comunitária da UFSCar.

 

“Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se  dela. Pois o Messias não vem apenas como o salvador; ele vem como o vencedor do Anticristo. O dom de  despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

(Walter Benjamin)

Continue reading

MICHEL TREME

Passadas algumas horas do escândalo do mês – aquilo que nós da esquerda vinhamos avisando desde 2014 -, uma certeza incontestável ficou: Temer é fraco e foi traído pelos verdadeiros donos do Brasil. Ele cairá em questão de pouco tempo.

O que se tem contra Michel Temer não é o que se apresenta contra Lula ou o que se apresentou contra Dilma. Contra Temer há provas factuais de seu envolvimento na compra do silêncio do ex deputado (hoje preso) Eduardo Cunha. Apresentadas na tarde de ontem (17) para Fachin na PF pelo dono da JBS, Joesley Batista, as gravações que apresentam a negociata de Temer com a compra do silêncio de Cunha serão usadas como chave para o impeachment do presidente, isso se Temer não renunciar (o que enxergo mais provável). Temer se mostrou fraco e aliado com políticos medrosos, que pularam do barco na primeira acentuada de queda do presidente. Com ele e Aécio Neves agora no centro da roda de fogo, o Brasil enfim vai abrindo os olhos para a corrupção que até então parecia ter sido inventada pelo PT e disseminada pelo PMDB. 

Temer, junto a Aécio agora são alvos daquela que sempre pareceu os proteger, pré, durante e pós o golpe em Dilma… mas por que a Glovo pulou fora? 

Observando a conjuntura política atual, é de interesse da emissora da família Marinho abandonar o barco e se passar por isenta quanto a articulação do golpe à democracia, consolidado ano passado. O mais bizarro é que estamos presenciando um golpe dentro do golpe. Toda a cúpula tucana quer a cabeça de Aécio e membros aliados de Temer ameaçam votar na Câmara a favor do impeachment. O quarto poder me parece ter sido o único com cérebro nessa maracutaia toda, nesse “acordão”, é o único que sai ileso.

Temer treme e vai cair, junto com Aécio, ambos possuem uma gritante chance de serem presos – com provas E convicção. 

O populismo de Temer não convence ninguém, não tem carisma e não tem o povo ao seu lado. Isolado no frio Palácio dos Jaburus, o atual presidente da República Federativa do Brasil aguarda inquieto sua acessoria resolver de que maneira cair. O importante é que caia.

Com a queda de Temer, outro capítulo se inicia na capenga política brasileira: a derrocada de Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara dos deputados e sucessor da posição. Estaria nas mãos da terceira na linha sucessória, a presidenta do STF, ministra Carmen Lúcia, as chaves para esta se tornar presidenta do país? Poder de prender todos na linha de sucessão  (Temer, Maia e Renan) ela tem… 

O jogo de cadeiras em Brasília está cada vez mais ríspido, as regras são ditadas pelos inatingivinatingíveis da mídia e ao sabor dos interesses do Capital. Aguardemos enquanto dizemos a célebre frase: eu avisei!