CARA GENTE BRANCA

Cara gente branca, eu presumo que nos ultimos 300 ou 400 anos nada na cultura – Nacional ou internacional  – tenha com tanto êxito botado o dedo na ferida de seus privilégios dentro de um show de TV como uma série da Netflix, com o mesmo nome da provocação supracitada, fez a partir de 28 de abril. 

Deixe-me ser mais claro, ops, bom, vocês entenderam, nenhum programa até hoje dentro da cultura de massas pode expor melhor a situação sobre o racismo dentro do meio acadêmico,  tal qual “Cara Gente Branca” – com todo respeito,  mestre Spyke -, pois adaptar uma história de um filme tão bom (2014) e fazer dela uma série tão bem desenvolvida é uma tarefa que poucos produtores que mantém a sanidade se habilitam pra fazer, isto é, ir contra o pensamento hegemônico – e racista – das emissoras norte americanas e publicamente acusar a Fox News de racismo é algo a ser aplaudido. Pensemos assim, uma série que tinha tudo para ser boicotada, um fracasso, se mostrou uma das melhores produções da Netflix, ao nível de Orange is the new black e Breaking bad.

Acalme-se, caso o problema for o famigerado “spoiler”, porém esse texto se trata da série em questão e não do filme, por isso é meu dever informá-lo, leitor: ASSISTAM ANTES AO FILME (tem no Netflix também).

[SPOILER]

A série começa ao término do filme, caso você tenha assistido, sabe do que eu estou falando. Sam segue com seu programa na rádio da Winchester University e ganha ainda mais notoriedade após a festa de Halloween dada por Kurt na Pastiche. O foco da trama segue de certa forma rodeando Sam e seu affaire branco, além de introduzir uma nova personagem na série,  Joelle. Como uma das líderes do movimento negro da Universidade,  Sam se vê como responsável por administrar sua vida acadêmica,  amorosa e política. 

[FIM DO SPOILER]

Porém o interessante é que a trama não se fecha aos dilemas de uma só personagem,  pelo contrário, abre espaço para três brilhantes figuras: (além de Sam White) Reggie, Troy e Lionel. Esse quarteto divide as atenções do espectador de forma amistosa, onde a cada episódio conseguimos nos aprofundar cada vez mais em seus dilemas que, ao final da temporada, se explicam facilmente àqueles que prestaram atenção nas personagens. 
De certa forma, achei brilhante,  provocante e necessária a série.  Tratar sobre racismo num mundo polarizado e capenga como o nosso (sim, Brasil) pode muitas vezes ser um tiro no pé,  mas com as palavras certas é possível alcançar espaços que os negros nunca imaginaram!

Samantha White

AH! E, cara gente branca… esse show não veio para agradar seus privilégios.  BRACE YOURSELVES 

Nota: 9/10

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BRAGA E O CÂNCER SILENCIOSO DA SOCIEDADE BRASILEIRA

“Só pra vocês terem uma ideia, em 1996, a população carcerária Brasileira era de 148mil presos, hoje [2006], dez anos depois, a população carcerária é de mais de 400mil presos. Eu percebi que a população carcerária brasileira dobra em média a cada oito anos, enquanto que a população brasileira dobra a cada cinquenta anos. Se continuarmos com essa lógica, em 2081, a população brasileira será de 570mi, enquanto que a população carcerária brasileira será de 510mi, ou seja, 90% dos brasileiros vão estar na cadeia. Mas não se apavorem! Em 2084 todos os brasileiros poderão desfrutar de uma cela em um complexo como o de Bangu” (Tropa de Elite 2, José Padilha. 2010)
Se então o número de policiais aumentou, por que a estatística não apontou que o número de presos diminuiu? Por que essa conta infâme não bate?
Muito vem sendo dito há anos por sociólogos, membros de ONGs e outros especialistas na área, à exaustão: no Brasil. criminaliza-se a cor e a classe;
É com uma enorme tristeza no coração que digo que estou de acordo com essa frase, cruel e sábia, antiga e ao mesmo tempo muito atual sobre a situação de favelados, negros e negras no país. Com o julgamento do caso de Rafael Braga, mais um capítulo, mais um número na estatística que aponta o quão medíocre é essa guerra às drogas, o quão rasa, corruptível e hipócrita é a sociedade média brasileira e seu pensamento pautado numa Elite Branca e racista.
Caso você tenha se enfiado numa caverna esses últimos anos e não tenha visto que o único preso nas manifestações de 2013 foi um catador de latinhas da Vila Cruzeiro, abordado mais uma vez pela polícia de forma truculenta, mesmo sem reação, forçado a portar cocaína dentro da viatura e indiciado por crimes que não cometeu, clique aqui.
Com a sentença em mãos e um lugar em Bangu, Braga agora aguarda uma justiça quase divina ou irá amargurar onze anos uma decisão judicial pautada por delações dúbias, argumentos dos policiais que o prenderam que não são iguais e um silêncio sepulcral da maioria da sociedade brasileira. “Ver pobre, preso, morto, já é cultural”, como bem disseram os Racionais MCs.
Como então lutar pela disseminação de mais um capítulo da brutalidade do racismo institucional no país e atingir as pessoas? Como convencer uma justiça racista que foi uma sentença aplicada sem quaisquer resquício de verdade? Como mostrar que o único depoimento que bateu esses anos todos foi o do próprio Rafael, enquanto os policiais que o prenderam contaram versões diferentes do ocorrido? “Mais um pra servir de exemplo”?
Esse é o país que vivemos, senhoras e senhores, onde o negro sai de casa sem saber se vai voltar, onde a maioria nos presídios estão lá sem julgamento justo e/ou acusados de “tráfico” (6g de maconha ou pó, risos), ajudando na superlotações desses presídios que não servem de nada para uma reabilitação social justa e digna.
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Rafael Braga, mais um nego drama.

Torço para que Rafael Braga, já uma estatística do Estado burguês racista, não se torne mais um número dentre os presos que não conseguem plena “reabilitação social” após cumprir pena; Torço que daqui a menos de onze anos ele compareça a cada palestra para denunciar os abusos que sofreu pela Polícia Militar e choque cada filho de cada um que não se importou com esse triste e alarmante número social no Brasil: 250.000

A NECESSIDADE DE DOCUMENTARISTAS

Quando Simon Kilmurry escreveu para o The Hollywood Reporter em fevereiro desse ano sobre como nunca antes os documentários foram tão importantes para o cinema e a construção crítica de uma sociedade eu não botei fé, até que, com a finalização do meu documentário, “Lentes entre a gente” (2017), comecei  a entender como o retrato nu e cru sobre o cotidiano das pessoas mexia com uma parte de mim e que essa parte era a minha vontade de mostrar ao mundo algo relevante, nem que fosse para uma parcela não tão relevante assim da sociedade, mas era. E com certeza esse movimento político, por assim dizer, dos documentaristas como Raoul Pack, diretor do indicado ao Oscar “Eu não sou seu negro”, fez reafirmar os argumentos de Kilmurry: “Precisamos urgentemente de histórias reais de pessoas reais e suas experiências”.
“Mas por quê?”, provavelmente muitos se perguntam, visto que a maior parcela que vai ao cinema, não vai para ver documentários, assim como a maior parcela que lê livros, não lê biografias ou etnografias. O mais importante a se pensar aqui é o custo benefício de um documentário, pois, sendo um trabalho levado a sério, os retratos documentais – principalmente em vídeo – podem fazer uma diferença ridiculamente grande no impacto com o público. As pessoas sempre foram interessadas em saber das outras, o problema é que a indústria não achou uma maneira, um “timming” para sustentar essas produções.
Os documentários têm sim um público alvo quase todas as vezes, porém aquela parcela que assiste e que não se encaixa nesse público alvo também é afetada pelo documentário tão quão a outra. É um ponto positivo dos documentários, pois você dificilmente sai da sala do cinema a mesma pessoa, são histórias que mexem com a gente de certa forma e essas histórias precisam serem contadas e precisam de quem as conte.
Passei a maioria do tempo enquanto realizava meu documentário me perguntando “será que vão assistir?” “por que iriam ver?” “pra quem serve esse filme?”. São perguntas que mais tarde eu entendi que motivam o documentarista a seguir em frente com seu trabalho, pois quando se põe uma ideia na cabeça de contar uma história, ela precisa se concretizar num projeto audiovisual e para isso é necessário que uma pessoa sempre te apoie: você mesmo;
Não que o grupo de pessoas que trabalha contigo deva ser esquecido, mas quando mergulhamos nessa atividade tão revigorante, de aprender, mais que tudo, é preciso provar todo tempo a si mesmo que você teve uma boa ideia, por que senão, pare. Pare, pois é desgastante aos outros individuos qualquer sinal de esforço absurdo a uma atividade que os inclui e que você não quer mais. Observei muito isso em antropologia, pois aqueles homens e mulheres se doavam ao máximo para desenvolver métodos de estudo de povos sem que isso os afetasse, e após o projeto finalizado, o trabalho de deixar aquela sociedade intacta – o que é impossível, mas achamos que funciona.
O trabalho do documentarista deve ser intenso, pois são necessários rearranjos a todo momento, pois temos que ir entendendo o “modus operandi” da comunidade que estamos, não podemos simplesmente chegar lá pra gravar e ordená-los a algo, já existia uma conduta alí. Me lembr de Bateson quando escreveu “Naven”, seu mais famoso livro, dizendo – a grosso modo – que é importante participar da comunidade e não agir como um ser externo, diminuir-se às relações de poder daquele povo para assim entender o por que as coisas são como são e, o mais importante, não esperar que algo mirabolante ocorra todo santo dia na comunidade, pois eles não são um circo para você assistir, muitas vezes as cerimônias ocorrem e você nem percebe, pois para eles soa como uma “naturalidade” e para você também. Caçar, separar a colheita, cozinhar, tudo isso podem ser rituais, e nós, ingênuos, esperando uma grande cerimônia à lua cheia…
Existem inúmeras formas de produzir um documentário e a maioria delas consiste em buscar algo que ainda não foi dito pela voz de alguém que precisa dizer. O documentarista então é o intermediário entre aqueles que precisam ser ouvidos e aqueles que precisam ouvir, é ele quem dá voz a pessoas que passam batidas pela nossa sociedade. Por mais que sejam famosas, como James Baldwin, muitas vezes essas figuras escondem um lado que só pode ser entendido se ligarmos todos os pontos.
Foi o que eu senti quando saí da sessão de “Eu não sou seu negro”, pois Baldwin queria contar algo para nós, ele queria demonstrar a historia das lutas por direitos étnico-raciais nos EUA e escolheu contar a partir de três importantíssimas figuras, seus amigos “Martin Luther King Jr”, “Malcom X” e “Medgar Evers”, seus colegas, pessoas com quem Baldwin já tomou um café ou dois, era próximo o bastante para entender a importância desses três homens conflituosos entre si, mas que desejavam algo maior em comum: A libertação do povo preto.
Sendo um documentário póstumo, Peck selecionou trechos de entrevistas e dos escritos inacabados de Baldwin para a síntese de toda argumentação de Baldwin sobre o resultado da luta negra até aqui e como ela deveria seguir acontecendo e o que ela desencadeou. “Eu não sou seu negro” reflete a história dos EUA e como ela foi cruel com o povo preto, é um documentário necessário para abrir mais uma vez a ferida da sociedade, pois o simples fato da luta ainda existir incessantemente já é um sintoma de que o problema está longe de ser resolvido.
Documentaristas como Pack e contadores de historia como Baldwin devem servir de exemplo para uma nova geração de atuantes na área, pois se você possui uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, meu caro/minha cara, faça acontecer.

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O HOMEM DO ANO

O JUIZ Sérgio Moro, com todas as minhas fichas apostadas nele, é o homem do ano no cenário brasileiro. Goste dele ou não, admitir que 2016 foi o ano em que entendemos seu poder é o primeiro passo para entendermos o que ocorre no país. O principal cabeça da Operação Lava Jato tomou as revistas, jornais, TVs e a boca do povo, tornou-se mártir de uma derradeira investida contra a esquerda brasileira e um nos nomes mais procurados do Google no Brasil. Sua foto tornou-se viral, suas conferências, lotadas e sua índole, inquestionável dentro do senso comum.

Não prometo dissertar sem julgamentos, mas tentarei apresentar algumas reflexões sobre essa figura tão midiática que se tornou um juiz de primeira estância cujo o único objetivo era combater um dos maiores escândalos de corrupção do país.

Ninguém está acima da lei, ninguém pode subjugar a lei, ninguém tem o direito de contorcer a lei, mesmo que leve a decisões que uma parcela da população considere viável. Talvez a máxima maquiavélica que diz que “os fins justificam os meios” nesse caso bastam para que toda uma crise institucional leve o país à beira de um Estado de exceção.

Acordei pela manhã na casa de um casal de parentes distantes e percebi que a TV estava ligada na Rede Globo com o plantão começando. Era Lula sendo conduzido coercitivamente a mando de Moro para depor sobre suas acusações na Lava Jato. Daquele dia em diante, entendi o que alguns já haviam me alertado: o efeito-Moro é um poderoso sedativo. Uma figura jurídica (e não apenas política ou midiática) estava sendo usada para a justificação de quebras no Direito constitucional.

Art. 260 do Código de processo penal: Das Conduções Coercitivas. Se o acusado não atender à intimação para o interrogatório, reconhecimento ou qualquer ato que, sem ele, não possa ser realizado, a autoridade poderá mandar conduzi-lo à sua presença. Parágrafo Único. O mandado conterá, além da ordem de condução, os requisitos mencionados no artigo 352, no que lhes for aplicável.

A lei está clara, não é possível fazermos interpretações analógicas ou extensivas ou quaisquer outras formas de tergiversação sobre os dispositivos legais. Então como deixamos passar isso? Pois os fins justificam os meios? Pois a imagem de Lula de nada interessa? Esse poder que o setor judiciário do país recebeu é o medidor de exaltações dos indivíduos cujo máximo que podem fazer é irem às ruas protestar. Naquele dia abriu-se uma brecha para outras inúmeras injustiças, como por exemplo o impeachment – que foi um julgamento puramente político e midiático – e outros causos que envolviam figuras do outro lado do campo político, como a condução coercitiva de Silas Malafaia, agora em dezembro.

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Matéria no site da ÉPOCA, um dia após o evento. Veja como o efeito sedativo legitimou Moro a descumprir a lei.

Moro sabe o poder que tem nas mãos, provavelmente também sabe o poder de que tem as mãos nele, porém a maré está à direita e tudo conspira a favor dessa nova onda neoliberal, cujos dois primeiros passos – o impeachment e a degradação da esquerda – já foram concluídos com sucesso e quase nenhum esforço. “De grão em grão, retrocedemos, sempre em nome da moral pública”, comenta o Prof.Dr. Lênio Luiz Streck, da Universidade Estácio de Sá. O que o professor quer dizer é que todos esses casos à revelia do ordenamento jurídico enfraquecem o Estado de Direito e substituem a lei por uma moral manuseável apenas pelo alto escalão brasileiro. Ainda segundo Streck, “para prender, basta dizer  a palavra mágica: clamor social e garantia de ordem pública”, é a nossa bandeira sendo usada como prerrogativa de um Estado de exceção, “Ordem e Progresso” – tiramos o “amor”, hoje sentimos falta dele – e Sérgio Moro cumpre à risca essas palavras, pois para manter uma ordem baseada numa moral que não o direito constitucional, são necessárias mãos de ferro, por isso “O Homem do Ano”.

Não vejo ninguém melhor preparado no Brasil para fazer o que Moro fez/faz, visto que, convicções sem provas à parte – e isso serve tanto para o espetáculo de seu fiel escudeiro Deltan Dallagnol quanto para os conspiracionistas da esquerda -, a Lava Jato alcançou seu status midiático necessário que acalma ao mesmo tempo que explode o povo brasileiro. Ninguém no lugar de Moro faria melhor e qualquer outro sofreria e toda arquitetura ruiria em questão de meses, os jornais não conseguiriam sustentar a operação e o que é uma ordem no caos tornaria-se apenas o caos.

“O machado está entrando na floresta, mas a árvore alertou suas irmãs: ‘Relaxem, o cabo é dos nossos!'”, com essa anedota é possível entender toda a passividade do povo, alegando que está sendo feito “o melhor para o país”, as maiores atrocidades jurídicas foram cometidas em 2016 e tudo isso girando na cabeça de Moro, se o homem ainda não abandonou o caso ou cometeu suicídio depois de ver seu objeto de estudo e pesquisa por anos nas universidades ruir é por que ele é um diferenciado, talvez seja o salvador da pátria.

Hodiernamente motivação é igual a fundamentação – e o Power Point de Dallagnol nos explicitou isso -, o processo é transformado em instrumento e juízes e membros do MP, dentro desse cenário desgastante, começam a acreditar piamente que são salvadores da pátria. Salvadores da pátria, por mais bem intencionados que sejam, acabam sempre assumindo uma postura voluntariosa contrária ao Estado de Direito. Se Moro promete servir a esse Estado de Direito e a essa CF, temos algo a pensar.

Ministério Público denuncia Lula

O espetáculo de Dallagnol. “Não temos provas, mas temos convicção”, tudo para ver Lula na cadeia, a – talvez – ação mais importante dentro da Lava Jato.

Em termos maquiavélicos, se o Príncipe em prol de manter o Estado funcionando, justifica suas ações pelo reflexo do resultado final é porque ele entende que manter  o equilíbrio da política é crucial para atingir-se os objetivos, nem que  para isso ele aja fora de uma moralidade comum, ou adequando-se ao Brasil, utilize a mídia para moldar essa moralidade. Se o príncipe for justo e amoroso, conduzirá o Estado à ruína.

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Temer se espelha em Maquiavel, a diferença é que Temer não possui as qualidades de um Condottieri

“Tudo é possível quando um mandato presidencial é desrespeitado. O impeachment sem crime de responsabilidade escancara as portas para o avanço da crise política e institucional. Daí os conflitos institucionais que se aprofundam e o choque entre Legislativo e Judiciário. As relações de harmonia e equilíbrio entre os Poderes, exigidas pela CF, estão comprometidas”

Ex presidenta Dilma Rousseff

O impeachment não foi a cereja do bolo para essa crise nacional, foi o start que alimentou o desejo do brasileiro que a justiça seria feita… assim.

Moro segue com a Lava Jato a todo vapor, afinal, ele ainda não terminou sua caça a Lula. São mais de 160 prisões, 71 acordos de delação premiada, 259 acusados formalmente, R$38.1 bilhões em ressarcimentos, R$756.9 milhões em repatriação. Até o fim desse texto foram 120 condenações, contabilizando 1257 anos, 2 meses e 1 dia de pena.(dados do MPF)

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Sérgio Moro posando para a capa da Isto É.

O homem do ano possui números exorbitantes nas suas costas, mas a que custo?

2016: UM ANO CINEMATOGRÁFICO

Não, essa não é uma metáfora para me referir às bizarrices sociopolíticas que aconteceram nesse que para ser um ano (quase) esquecido. Em termos gerais, concordo com os termos da ambiguidade do título desse post, todavia eu vim aqui hoje para dizer que: Nem tudo em 2016 foi um completo desastre e, ao julgar pelo Oscar dado a Leonardo DiCaprio no início do ano, algo me disse que o cinema seria o ponto forte de um ano cheio de golpes e retrocessos. O cinema avançou e 2016 foi o melhor ano do século XXI até agora para a sétima arte.

Quando nos referimos a Cinema, claro que uma boa parcela dos cinéfilos está se referindo aqueles filmes que vêm com intuito de inovar ou aperfeiçoar os métodos cinematográficos, dar mais paixão à sétima arte e desenvolver um olhar crítico sobre o cinema, aprimorando filme após filme.

Os enredos de 2016, nacionais e internacionais, não deixaram a desejar, completos, alguns até complexos, cheios de paixão, como deve ser o cinema. Aqueles que prestam atenção nesses detalhes que ao grande público passam despercebidos com certeza saíram satisfeitos após uma sessão. Os filmes foram colossais.

Chegando ao final do ano, nada melhor do que fazer algumas comparações e expectativas para as premiações que ocorrem no início de 2017. Afinal, quem levará o Oscar e por quê? Quem vence a Palma de Ouro merece uma chance? Qual foi o melhor filme do ano?

Comecemos…

Oscar 2017

Dificilmente os melhores filmes do ano irão se encaixar na disputa pelo homenzinho dourado, até porque a Academia costuma escolher entre filmes estadunidenses/canadenses para a premiação, porém esse ano os forasteiros vêm com peso, pois são grandes histórias e mostraram ser capazes de desbancar Hollywood.

As grandes apostas giram em torno de cinco filmes:

“A Chegada”, de Dennis Villeneuve. Considerado o “2001” da atualidade, o longa explora os contatos extraterrestres de maneira peculiar e não como necessariamente um filme de catástrofe. Claro que, para os muitos que consideram – assim como eu – o filme de Kubrick o melhor filme já feito, uma pitada de expectativa caiu sobre o filme e podemos sem querer deixar escapar a importância para a contemporaneidade do longa. Realmente um dos melhores filmes do ano e fortíssimo candidato a estatueta.

“LA la Land”, de Damian Chazelle. Superestimado? Não sei, porém o filme chega em condições reais de fazer bonito nas telonas com Ryan Gosling e Emma Stone, dois dos maiores atores em ascensão em Hollywood. O filme é “fofo” aos olhares do povão, porém melódico e com a pura e completa utilização nos métodos cinematográficos para um olhar mais aguçado. É aquele filme que agrada a todos justamente por sua simplicidade sem ser um clichê.

“Loving”, de Jeff Nichols. Pode talvez ser apenas uma história impactante, mas sua construção e atuações são pra lá de profissionais. De certa forma, esse filme merece ser visto não só uma vez, mas até entendermos seu significado por trás da obviedade dos conflitos jurídico-raciais norte americanos.

“Café Society”, de Woody Allen. Talvez pinte na premiação, pois Allen sabe – e muito bem – como contar uma história, como construir uma personagem, como utilizar-se de metáforas visuais para apontar ao espectador seus gostos pessoais dentro do filme, como aplicar o roteiro em seu tempo e espaço ideal. Café Society é maravilhosamente simples.

“Manchester à beira do mar”, de Kennech Lonergan. Um dos melhores filmes creio que correrá por fora pela estatueta, talvez por ser um tanto melodramático para a Academia, porém deve ser citado nessa lista, tanto pelo fato de ter um enredo interessantíssimo quanto pelo apelo dos críticos.

O Oscar não necessariamente premia o melhor filme do ano, porém sua decisão não deve ser descartada, muitos dos filmes que já venceram o prêmio estariam na lista de melhores do ano, porém a Academia possui um sistema de membros vitalícios, isto é, as visões sobre cinema vão mudando, porém um certo conservadorismo ainda ronda os Oscars de modo que fica complicado confiar piamente na escolha de mais de 3600 atores/diretores/produtores/críticos de idades e visões tão diferentes sobre o cinema. É por isso que vale a pena citar também os

Melhores filmes do ano

Com certeza essa lista possui algumas apostas individuais e outras mais de senso comum entre os cinéfilos. Alguns dos filmes aqui ainda não lançaram, devo dizer, porém estou também confiando nas inúmeras críticas dos festivais sobre os citados abaixo. Deve-se dizer, toda vez que se cria uma lista como essa, que o método para a escolha do melhor filme é um tanto cruel, pois aquele que gosta de cinema deve desvincular seu olhar de espectador e seu olhar crítico sobre a obra. Sem mais delongas:

“Kate Plays Christine” ou “A Chegada”.Qual o melhor filme do ano? Difícil escolha, ambos estão em pé de igualdade. O mais interessante a se pensar é que, independente de qual seja o melhor, observamos que o gênero feminino dominou as histórias fortes de 2016 e se fez presente em quase todos do Top 10 dos melhores filmes do ano. São duas histórias densas e impactantes, não possuem erros. Tecnicamente quase nenhum dos filmes da lista possui, não tem por que não dar nota 10 para esses dois filmes gigantes!

Fora essas duas obras colossais, que sem sombra de dúvida são os dois melhores filmes do ano, confira abaixo a lista dos dez melhores longas de 2016:

  • Kate Plays Christine, de Robert Greene (ENG)
  • A Chegada, de Dennis Villeneuve (USA)
  • Eu, Daniel Blake, de Ken Loach (ENG)
  • Aquarius, de Kléber Mendonça Filho (BRA)
  • Loving, de Jeff Nichols (USA)
  • O Apartamento, de Asghar Farhadi (IRN)
  • Fixeur, de Adrian Sitaru (ROM/FRA)
  • Neruda, de Pablo Larrín (CHI)
  • Julieta, de Almodóvar (ESP)
  • Cinema Novo, de Eryk Rocha (BRA)

É interessante percebermos a colocação dentro dessa lista – que, novamente, não é consenso – a variedade e a paridade de filmes não-estadunidenses, como houve uma profissionalização dos países de terceiro mundo e como o Brasil conseguiu atingir com essas duas grandes obras  um lugarzinho na história, mesmo com todo o esforço e negligência do Estado e dos cidadãos para com o cinema nacional. Depois desse ano brasileiro algum está permitido a dizer que não sabemos fazer cinema, não só sabemos como somos dignos de um alto patamar e de uma placa na história, somos talvez um dos povos que produz cinema de qualidade que na realidade só será reconhecido no exterior, como diz meu velho amigo Orestes Toledo “O cinema brasileiro no Brasil é estrangeiro”.

Claramente vemos na lista supracitada dois filmes- chave: O possível Vencedor do Oscar e o Vencedor da Palma de Ouro. Isso se deve pela importância das duas premiações. Hodiernamente por sua maior mídia e representação na sociedade, o Oscar encanta mais do que o Festival de Cannes – o mais importante e concorrido do mundo -, enquanto um premia com exatidão o outro ainda peca em escolher seu melhor filme e muitas vezes acaba dando um prêmio de consolação em algumas categorias, o que não acirra essa corrida para ser o melhor do ano. Muito dificilmente filmes como “Eu, Daniel Blake”, “Kate Plays Christine” ou “Aquarius” estarão na premiação em fevereiro, mas isso não significa que são menos importantes.

E por último – mas não menos importante, muito pelo contrário – o grande salto do cinema nacional

ESTAMOS DE PARABÉNS, Brasil! Por esse 2016 fantástico nas produções cinematográficas, foram obras incríveis de encher os olhos do espectador, tramas muito bem montadas e com um nível de profissionalização de dar inveja em Hollywood. Não é muito dizer isso, simplesmente mostramos a que viemos.

Infelizmente nem tudo são flores, toda a situação sociopolítica gerou certo desconforto no cinema nacional, principalmente envolvendo o filme “Aquarius”, cujos atores e o diretor Kléber Mendonça Filho fizeram um protesto silencioso contra o golpe que ocorreu no país e, como retaliação, não obtiveram uma vaga para disputar o Oscar de melhor filme estrangeiro, indo no seu lugar outro bom filme – porém nem tanto -, “Pequeno Segredo”, de David Schurmann. Sonia Braga, atriz principal do filme de Mendonça Filho está impecável, talvez seu melhor trabalho no cinema, como dizem muitos críticos, ela incorporou a jornalista Clara de maneira tão feliz que é impossível não se tocar com a história. Um domínio absurdo do cinema.

Os documentários esse ano também não deixaram de representar, ideias novas e com uma visão muito diferente do padrão documentarista fizeram a diferença dentro do cenário nacional. Outro ponto a ser aplaudido é a superação do cinema nordestino sobre o paulista e o carioca, dos polos mais importantes de cinema do país, com certeza o de Pernambuco demonstrou por que é considerado o melhor.

Confira então uma lista dos dez melhores longas nacionais de 2016:

  • Aquarius, de Kléber Mendonça Filho
  • Cinema Novo, de Eryk Rocha
  • Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos, de Sergio Oliveira
  • Elis, de Hugo Prata
  • O Shaolim do Sertão, de Halder Gomes
  • Boi Neón, de Gabriel Mascaro
  • Mãe só há uma, de Anna Muylaert
  • Meu amigo Hindú, de Hector Babenco
  • Eu sou Carlos Imperial, de Renato Terra e Ricardo Calli
  • Mate-me por favor, de Anita Rocha da Silveira

De maneira espetacular vai se encerrando o ano do cinema, mas aguardemos que 2017 possa nos surpreender novamente.

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QUANDO O NEGRO ATINGE A FAMA

Obviamente esse post não é um causo sobre minha pessoa – felizmente? Infelizmente? Quem sabe? -, porém me proponho nesse vinte de novembro, dia da consciência negra, tentar fazer uma análise sobre o mundo dos famosos realizando um recorte específico às celebridades negras, seja na televisão, cinema, política ou esportes.

Quando o sistema não consegue nos destruir, ele pratica métodos que vão absorvendo nossa cultura para nos encaixar no método que ele deseja e que faça o negro produzir dinheiro e alimentar o sistema, de quebra, o sistema ainda arranja uma desculpa para dizer que não é racista (“veja só, o presidente dos Estados Unidos é negro!”).

A fama, ao que me parece, vem carregada de prestígio e toda essa mistura que aos olhos externos – assim como os meus – se parece tão maravilhosa, pode ser um peso extra quando se é de uma etnia não privilegiada. Os negros ao longo da história foram massacrados em todos os sentidos e hoje não se é possível culpa-los por suas prepotências de “famosos” sem fazermos uma regressão ao que muitos passaram até que sua cabeça fosse moldada a desejar a fama como os brancos almejam.

Ascenção é estar em ação, é algo a ser conquistado, é processo e quando se atinge um nível de fama dada essa ascensão – e por conseguinte dinheiro – muitos negros são taxados de egocêntricos e outros adjetivos que se limitam a retratá-los como pessoas que “não sabem ser famosas”, vê-se muito na mídia a quantidade de críticas à celebridades afros a respeito do absurdo que fazem depois de famosas. O fato é que, bem como diz a música Famous, de Kanye West (que fala justamente sobre isso) “As pessoas chegam a um ponto da fama onde é impossível tirá-las de lá por mais besteiras que elas façam” – não com essas palavras, obviamente, mas esse é o significado da música.

A fama dos negros entre os negros é vista completamente diferente da fama dos negros entre os brancos e isso pode ser percebido no discurso que cada etnia profere sobre o mesmo assunto, quando o negro atinge a fama ele primeiramente é saudado pelos negros, mas dependendo do modo que ele agir dentro dessa nova classe social e cultural – caso não “aja como um branco” – ele começará a ser diminuído por esses que lá já estavam e sua cultura absorvida para o meio branco até que seja dado como um discurso imbecil o de questionar por que rappers brancos fazem tanto ou mais sucesso que negros – e para ser sincero, impossível.

O trabalho e a valorização dele dentro do sistema feito pelos negros é tão bom quanto o feito pelos brancos e é por isso que apontar essas pautas é importante dentro do mercado e mostrar que os negros que lá estão, mesmo que sejam pouquíssimos, estão para ficar e não podem ser negligenciados com críticas de vieses morais que eu sempre escuto na mídia. A ostentação é variante dentro desse mundo e criticar os negros por isso é não olhar para o fato de que na maioria dos casos eles são os primeiros em ascensão da sua família e que passaram a vida vendo tudo que era disponível no mercado sem o dinheiro para tê-las (Eu quero, eu compro – Racionais Mc’s).

Os negros são maioria entre os microempreendedores no Brasil, mas esse número é ínfimo entre os grandes empresários, esse é o reflexo do racismo institucional que demonstra como os investidores não creem na capacidade dos negros de fazerem dinheiro por conta própria – e ainda querem nos fazer crer que só a meritocracia leva as pessoas a fama.

A responsabilidade social dos negros famosos é o que dita o desejo de ascensão dos negros que ainda não chegaram lá e que não sabem por onde começar e desistem de seus sonhos visto a grande pressão do mercado sob o seu trabalho. Tudo que ele conseguir absorver, vai tentar usufruir de você até esgotar e tudo que ele não conseguir, vai marginalizar.

 

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uma homenagem a todos os negros e negras que atingiram o sucesso – que um dia sejamos muito mais!

 

 

 

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E A QUESTÃO DO ENEM

Enquanto vos escrevo, possivelmente mais de oito milhões de jovens estão agora – 16h – sentados em suas apertadas cadeiras Brasil afora dissertando sobre Os Caminhos para combater a intolerância religiosa no país, o tema da redação desse ano que, cá entre nós, foi desenvolvido a dedo pelos educadores que prepararam a prova. Para experimentar algo mais didático, irei separar esse texto em três partes: uma introdução, um comentário sobre a redação em si e um comentário sobre a realidade no país. Elas poderão ser lidas da maneira que você, leitor, bem desejar.

I – Os problemas da intolerância religiosa no Brasil

É perceptível hodiernamente no país uma manutenção nos números absurdos de casos de intolerância religiosa no Brasil, são casos e números preocupantes, visto que, de certo modo, vivemos num país laico e que em tese deveria acolher todas as religiões – e os não religiosos -, a prática nega isso. Os impasses sociais que causam as ações de intolerância religiosa vêm de certa forma demonstrando como nosso sistema de democracia social é ineficiente, Pierre Bourdieu já argumentava que não é possível haver democracia sem um contra-poder crítico, falta isso aos cidadãos brasileiros, isso e entender que democracia é muito mais do que a decisão da maioria, pois esta não pode infringir quaisquer direitos legais de outras minorias, democracia é estar de acordo com as regras do jogo e não com os conteúdos.

A intolerância religiosa aparece nesse cenário quando vemos as regras sendo quebradas pela discordância dos conteúdos, desde que existem religiões existe intolerância religiosa, mas não podemos nos prender ao modo arcaico a fim de uma satisfação saudosista – quase sexual – de que “a minha religião venceu a sua” e nos colocarmos em pedestais, hierarquizando a importância das religiões, afinal, dentro mesmo de várias religiões há a intolerância religiosa: sunitas e xiitas, católicos e protestantes… O ponto crucial que gera a intolerância religiosa é a falta de razão democrática. Dirá o senso comum que lhes falta amor, porém amor não pode ser intrinsicamente ligado com a razão, visto que o amor também é cego e possui seus defeitos, a razão, por mais inalcançável aos modos hodiernos que seja será mais democrática que o amor. Eu não preciso amar quem discorda de mim, eu preciso respeitar.

II – A redação do ENEM e o “esquerdismo”

Não bastam as reafirmantes históricas do conservadorismo brasileiro em se oporem a todos os avanços progressistas, majoritariamente oriundos de pensamentos de esquerda, o reacionário não consegue enxergar a quebra nos padrões democráticos que ele sugere a cada ato que anda na direção oposta ou paralela ao ato progressista, isto é, mesmo se for bom para o povo, o conservador será contra pois a ideia veio “da esquerda”.

O mais interessante nessa análise é ver como, na realidade, esse pensamento reacionário – que não é de hoje – esbarra em todas as suas próprias falácias e àquelas que eles acusam a famigerada “esquerda” de proferir. Dentro dos ideais de Hirschman¹, poderíamos apontar as três teses intransigentes dos conservadores afim de barrar as tentativas progressistas de combata à intolerância religiosa.

A grosso modo: dentro da tese da perversidade, vemos que os argumentos dos conservadores são de que as tentativas de uma maior democratização dentro da linha do respeito à religião tornará as pessoas mais intolerantes ao invés de melhorá-las. Dentro da tese da futilidade, observamos o argumento que essas leis de incentivo a não-intolerância religiosa são em vão, visto que o sistema brasileiro é um sistema hegemonicamente cristão e que o Brasil é um país laico pero no mucho. Já dentro da tese da ameaça, observamos como os argumentos se estruturam afim de indicar uma perda de conquistas das outras religiões e do próprio ateísmo no país caso as mudanças em prol do combate a intolerância religiosa se estabeleçam.

Tendo em vista essa linha argumentativa, não é atoa que borbulham/irão borbulhar comentários reacionários do tipo “tive que ‘esquerdar’ para fazer uma boa redação”, infelizmente para o senso comum nacional os direitos humanos são coisa de esquerdista. Ano passado foi a mesma coisa com a redação sobre a violência contra a mulher e o mesmo tipo de indagação oriunda do conservadorismo, não lhes passa pela cabeça que os direitos humanos são e ponto, eles não são “de direita” ou “de esquerda”, eles atendem as necessidades do ser humano, independente de etnia, gênero ou preferência religiosa. Não aguardem menos – infelizmente – do conservadorismo nas próximas semanas e daqueles que dissertaram na prova do ENEM, o discurso sempre parte de um princípio único que é a manutenção dos privilégios daquilo que gosto de me referir como Elite Branca (leia o texto aqui), um pensamento que pode ser adotado por quaisquer ser humano independente de classe ou não. Quando a visão mais clara é que seus privilégios estão sendo perdidos, o desejo reacionário salta na pele e a pessoa se vê em cheque, não sabe se seu movimento será benéfico ou não e para que parcela da sociedade.

O ENEM acertou e muito com esse tema, aguardemos para saber o que os jovens dissertaram.

III – O Brasil e a intolerância religiosa

Nosso país registra milhares de casos de intolerância religiosa por ano e esse número oscila dentro de uma moda não muito animadora. Vimos nesse ano que a religião e a política estão num abraço tão forte que conseguiram ajudar a embaralhar ainda mais as prerrogativas do golpe: “por Deus e pela minha família, eu voto SIM!”. E não só dentro do cenário político propriamente dito, mas também pela vida social e turbulenta que principalmente os centros contemporâneos e grandes capitais viveram até a consolidação do golpe. Discussões, protestos, nervos à flor da pele, tudo isso girando em torno de figurões que de alguma forma têm seu rabo preso com religiosos.

Vimos a ascensão de figuras como Nando Moura e o resgate de outras como Malafaia, Pe. Paulo Ricardo e Olavo de Carvalho e seus discursos intransigentes, não atoa esses discursos existem e se aplicam na sociedade, eles cativam um público despreparado e desesperado, eles são “fáceis”, “engolíveis”, suas premissas agradam o povo e o senso comum. Essa realidade mostra como a comunidade não está preparada para esse debate, mas infelizmente assim mesmo ele precisa ser feito, pois não podemos ficar esperando sentados que a sociedade se apazigue a respeito disso.

 

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“A primeira missa no Brasil” – Cândido Portinari. 1860

 

A busca pelo fim da intolerância religiosa não consegue ser alcançada se não passar pela fina peneira da guerra do pensamento lógico argumentativo e da razão, desbancar esses argumentos intransigentes e trazer o povo, dentro dessa base, para se indagar sobre os direitos humanos, independente de acharem que “é coisa de esquerdista”.

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Nota: ¹ – HIRSCHMAN, A. O. “A Retórica da Intransigência”, 1992.