REVOLUÇÃO E REACIONARISMO – O CAPITAL CONTRA A VENEZUELA

“Um dia histórico esse da Constituinte” – Nicolás Maduro, presidente da Venezuela (30 de julho de 2017)

Postei esses dias na minha página pessoal do facebook a seguinte, rápida e singela frase:

“A burguesia que está aí hoje é a que invadiu palácios, queimou, explodiu, cortou cabeças de homens mulheres e crianças para aniquilar o sistema monárquico… Essa mesma burguesia hoje, diz que as revoltas e tentativas de derrubá-la são atos ‘terroristas’.
Ninguém cede o poder de graça, para haver revolução tem que haver luta”.

Essa frase, para um/a bom observador/a, logicamente resume em poucas palavras minha posição a respeito do que vem ocorrendo com o governo de Maduro – que, salvo proporções, não é um Chávez (assim como Stalin não era um Lênin) – na Venezuela, o país do momento dos ataques midiáticos que vêm, com sucesso, transformando a opinião pública aos moldes imperialistas e acusando o governo de ser uma ditadura sanguinária e antidemocrática.

O que vem acontecendo com as mudanças do governo venezuelano que, após a votação do último dia 30, decidiu por convocar uma assembleia constituinte¹ é uma jogada política, ao meu ver, de afronta ao sistema entreguista latino-americano, uma jogada que mantém a soberania do país nos trilhos e que impõe a oposição um contragolpe constitucional, isto é, a convocação de uma Constituinte pelo presidente da república está resguardada na CF da Venezuela²(art. 348), o que dá legitimidade à Maduro de fazer o que fez. Quem discorda, é politicamente, mas do ponto de vista legal, Maduro poderia ter convocado a Assembleia. Essa é uma decisão que se toma de acordo com o momento político do país.

De acordo com Igor Fuser, professor do curso de Relações Internacionais da UFABC, em entrevista ao Jornal da Record no dia 31 de julho, “Essa assembleia foi convocada diante de uma situação de crise econômica e política do país, de maneira que os poderes do Estado não se entendem. O legislativo declarou ‘guerra’ ao executivo e foi colocado fora da lei pelo judiciário, que não cumpriu algumas normas que deveria cumprir. Isso gera uma  situação de ‘paralisia do Estado’, as leis vigentes na Venezuela  não dão conta de um impasse dessa magnitude”.

O que o governo de Maduro fez simplesmente foi chamar o povo para eleger seus representantes que irão decidir o futuro do país, o que é a própria essência da democracia. bem diferente do que houve em 2016 no Brasil, o governo venezuelano chamou o povo para decidir sobre como tocar o país e é o povo que dá legitimidade ao governo.

Por mais que eu não seja um exímio fã do aparato Estatal, o julgo útil quando se trata de proteger a população do Capital e, por mais que o Estado e o Capital muitas vezes andem de mãos dadas, sem o Estado, o Capital tomaria mais conta do mundo do que já toma. Um Estado que seja gerenciado pelo  povo e contra a ordem do Capital, por mais que seja odiado, é mais digno e democrático do que um Estado que adota uma economia de livre mercado – mas deixemos esse diálogo para outro texto.

Por hora vale ressaltar a posição segundo o bombardeio reacionário vindo do Brasil a respeito do contragolpe venezuelano…. Voltemos a 2016 quando o congresso aplicou, sem provas, o golpe de Estado de destituiu do cargo a presidenta Dilma Rousseff. De lá pra cá, pudemos observar os setores que antes eram oposição trabalhando juntamente à mídia para minar toda a esquerda brasileira, primeiro, nos colocando no mesmo “balaio”, por assim dizer… Petistas, Psolistas, Pecebistas, Comunistas e Anarquistas sendo tratados como um só e demonizados mais uma vez na história brasileira como “terroristas” e antidemocráticos. Enfim, esse discurso, que não é novo, agora se volta para nossos vizinhos venezuelanos, uma vez que nosso país emitiu uma nota de repúdio à convocação dessa Constituinte, não respeitando a CF da Venezuela, muito menos sua soberania nacional. À gosto dos EUA, o governo Temer se diz contra o que vem ocorrendo e a mídia nativa o apoia quando escreve e reescreve nos jornais diários que o que os venezuelanos vivem é uma ditadura sanguinária.

Talvez agora possamos voltar um pouco ao meu post no facebook, pois para alguém que perceba a lógica, entende-se que apoiar a Venezuela é apoiar a revolução e, não sei quem disse a alguns lideres de partidos brasileiros que essa revolução seria “pacífica” ou algo parecido. Apoiar a Venezuela não é necessariamente apoiar uma matança, mas entender que haverá resistência da burguesia, que não vai entregar o poder de graça, assim como esta não arrancou a monarquia do poder no “por favor, obrigado”. Apoiar revoluções é apoiar revoluções e não criticar só por que “a revolução não foi do jeito que eu quis” e além disso, é cobrar do povo venezuelano que participe das ações do Estado para que este não se transforme, aí sim, numa ditadura sanguinária e que este se volte a reerguer o país com soberania e aos moldes do que povo mais deseja.

Iremos ler e ouvir ainda muitos discursos reacionários vindo da esquerda e da direita ainda a respeito da democracia venezuelana, mas creio que quem deseja a revolução pelo poder popular deve compreender que o que vem acontecendo nesse país é um forte indicio de que um futuro pode ser possível sem uma manutenção exaustiva do grande Capital.

venezuela

 

Advertisements

AH, O DIREITO BURGUÊS

moro-diz-que-nova-prisao-de-leo-pinheiro-nao-tem-relacao-com-acordo-de-d

O direito burguês, aquele oriundo das regras desenvolvidas pela sociedade, a mesma sociedade que assinou lá atrás aquele pacto para conviver em harmonia, sabe?
O direito burguês que rege nossa sociedade ocidental e, mais especificamente – para não ofender os países ocidentais onde o direito também é justo -, nosso Brasil em eras de pós-verdade. Que por muitos anos se revestiu com o mantra de ser aquilo que separaria os meninos dos homens e garantiria nosso convívio “saudável”.
O direito burguês que, ao menos em uma grande maioria de países do ocidente moderno, está baseado no princípio da presunção de inocência. E o que nós, povo metido a besta, fizemos, há muito tempo – alguns dirão que nunca tivemos – …? Jogamos este na lata do lixo, decidimos agir, num intervalo de três anos, politicamente quando escancaradamente – e nos laudos -, réus participavam de um processo jurídico.
A queda dos dois símbolos do maior partido de esquerda (de “esquerda”) do país. Os fogos de uma elite movidos pelo astuto pensamento de uma Classe Média Branca. “Já estamos cansados de ouvir isso!” “Golpe? Perseguição política?! balela! A-c-e-i-t-e-m, petistas, que dói menos! Seus íderes corruptos julgados! Ela impichada e ele vai pra cadeia (?)!”

Ah, o direito burguês que nos fez acreditar que poderia ser diferente, que poderiam seguir a lei. Já não a seguem com indivíduos de menor expressão todos os dias nas periferias desse brasilzão, poxa! Por que seria diferente com aqueles que, a bem da verdade, para o pensamento da Classe Média, são a periferia, são os pobres que chegaram lá e deram algum sustento para outros pobres, no popular: “para que o filho da empregada esteja na mesma universidade da filha da patroa”.
Ora, esse direito burguês sabe enganar direitinho, ein?! Me fez de bobo, nos fez de bobo (?)

É nessa situação cabulosa que nos encontramos que lembramos que o direito burguês por muitas vezes serve à classe burguesa e não a nós, e não aos burgueses que ousam trair seu pensamento de classe, esse direito não nos pertence.
Sem provas, com convicção; isso basta dentro do nosso brasilzão.

Não, a sapiência não vence a malícia.

O HOMEM DO ANO

O JUIZ Sérgio Moro, com todas as minhas fichas apostadas nele, é o homem do ano no cenário brasileiro. Goste dele ou não, admitir que 2016 foi o ano em que entendemos seu poder é o primeiro passo para entendermos o que ocorre no país. O principal cabeça da Operação Lava Jato tomou as revistas, jornais, TVs e a boca do povo, tornou-se mártir de uma derradeira investida contra a esquerda brasileira e um nos nomes mais procurados do Google no Brasil. Sua foto tornou-se viral, suas conferências, lotadas e sua índole, inquestionável dentro do senso comum.

Não prometo dissertar sem julgamentos, mas tentarei apresentar algumas reflexões sobre essa figura tão midiática que se tornou um juiz de primeira estância cujo o único objetivo era combater um dos maiores escândalos de corrupção do país.

Ninguém está acima da lei, ninguém pode subjugar a lei, ninguém tem o direito de contorcer a lei, mesmo que leve a decisões que uma parcela da população considere viável. Talvez a máxima maquiavélica que diz que “os fins justificam os meios” nesse caso bastam para que toda uma crise institucional leve o país à beira de um Estado de exceção.

Acordei pela manhã na casa de um casal de parentes distantes e percebi que a TV estava ligada na Rede Globo com o plantão começando. Era Lula sendo conduzido coercitivamente a mando de Moro para depor sobre suas acusações na Lava Jato. Daquele dia em diante, entendi o que alguns já haviam me alertado: o efeito-Moro é um poderoso sedativo. Uma figura jurídica (e não apenas política ou midiática) estava sendo usada para a justificação de quebras no Direito constitucional.

Art. 260 do Código de processo penal: Das Conduções Coercitivas. Se o acusado não atender à intimação para o interrogatório, reconhecimento ou qualquer ato que, sem ele, não possa ser realizado, a autoridade poderá mandar conduzi-lo à sua presença. Parágrafo Único. O mandado conterá, além da ordem de condução, os requisitos mencionados no artigo 352, no que lhes for aplicável.

A lei está clara, não é possível fazermos interpretações analógicas ou extensivas ou quaisquer outras formas de tergiversação sobre os dispositivos legais. Então como deixamos passar isso? Pois os fins justificam os meios? Pois a imagem de Lula de nada interessa? Esse poder que o setor judiciário do país recebeu é o medidor de exaltações dos indivíduos cujo máximo que podem fazer é irem às ruas protestar. Naquele dia abriu-se uma brecha para outras inúmeras injustiças, como por exemplo o impeachment – que foi um julgamento puramente político e midiático – e outros causos que envolviam figuras do outro lado do campo político, como a condução coercitiva de Silas Malafaia, agora em dezembro.

epoca

Matéria no site da ÉPOCA, um dia após o evento. Veja como o efeito sedativo legitimou Moro a descumprir a lei.

Moro sabe o poder que tem nas mãos, provavelmente também sabe o poder de que tem as mãos nele, porém a maré está à direita e tudo conspira a favor dessa nova onda neoliberal, cujos dois primeiros passos – o impeachment e a degradação da esquerda – já foram concluídos com sucesso e quase nenhum esforço. “De grão em grão, retrocedemos, sempre em nome da moral pública”, comenta o Prof.Dr. Lênio Luiz Streck, da Universidade Estácio de Sá. O que o professor quer dizer é que todos esses casos à revelia do ordenamento jurídico enfraquecem o Estado de Direito e substituem a lei por uma moral manuseável apenas pelo alto escalão brasileiro. Ainda segundo Streck, “para prender, basta dizer  a palavra mágica: clamor social e garantia de ordem pública”, é a nossa bandeira sendo usada como prerrogativa de um Estado de exceção, “Ordem e Progresso” – tiramos o “amor”, hoje sentimos falta dele – e Sérgio Moro cumpre à risca essas palavras, pois para manter uma ordem baseada numa moral que não o direito constitucional, são necessárias mãos de ferro, por isso “O Homem do Ano”.

Não vejo ninguém melhor preparado no Brasil para fazer o que Moro fez/faz, visto que, convicções sem provas à parte – e isso serve tanto para o espetáculo de seu fiel escudeiro Deltan Dallagnol quanto para os conspiracionistas da esquerda -, a Lava Jato alcançou seu status midiático necessário que acalma ao mesmo tempo que explode o povo brasileiro. Ninguém no lugar de Moro faria melhor e qualquer outro sofreria e toda arquitetura ruiria em questão de meses, os jornais não conseguiriam sustentar a operação e o que é uma ordem no caos tornaria-se apenas o caos.

“O machado está entrando na floresta, mas a árvore alertou suas irmãs: ‘Relaxem, o cabo é dos nossos!'”, com essa anedota é possível entender toda a passividade do povo, alegando que está sendo feito “o melhor para o país”, as maiores atrocidades jurídicas foram cometidas em 2016 e tudo isso girando na cabeça de Moro, se o homem ainda não abandonou o caso ou cometeu suicídio depois de ver seu objeto de estudo e pesquisa por anos nas universidades ruir é por que ele é um diferenciado, talvez seja o salvador da pátria.

Hodiernamente motivação é igual a fundamentação – e o Power Point de Dallagnol nos explicitou isso -, o processo é transformado em instrumento e juízes e membros do MP, dentro desse cenário desgastante, começam a acreditar piamente que são salvadores da pátria. Salvadores da pátria, por mais bem intencionados que sejam, acabam sempre assumindo uma postura voluntariosa contrária ao Estado de Direito. Se Moro promete servir a esse Estado de Direito e a essa CF, temos algo a pensar.

Ministério Público denuncia Lula

O espetáculo de Dallagnol. “Não temos provas, mas temos convicção”, tudo para ver Lula na cadeia, a – talvez – ação mais importante dentro da Lava Jato.

Em termos maquiavélicos, se o Príncipe em prol de manter o Estado funcionando, justifica suas ações pelo reflexo do resultado final é porque ele entende que manter  o equilíbrio da política é crucial para atingir-se os objetivos, nem que  para isso ele aja fora de uma moralidade comum, ou adequando-se ao Brasil, utilize a mídia para moldar essa moralidade. Se o príncipe for justo e amoroso, conduzirá o Estado à ruína.

michel-temer-abandona-lideranca-do-pmdb_664285

Temer se espelha em Maquiavel, a diferença é que Temer não possui as qualidades de um Condottieri

“Tudo é possível quando um mandato presidencial é desrespeitado. O impeachment sem crime de responsabilidade escancara as portas para o avanço da crise política e institucional. Daí os conflitos institucionais que se aprofundam e o choque entre Legislativo e Judiciário. As relações de harmonia e equilíbrio entre os Poderes, exigidas pela CF, estão comprometidas”

Ex presidenta Dilma Rousseff

O impeachment não foi a cereja do bolo para essa crise nacional, foi o start que alimentou o desejo do brasileiro que a justiça seria feita… assim.

Moro segue com a Lava Jato a todo vapor, afinal, ele ainda não terminou sua caça a Lula. São mais de 160 prisões, 71 acordos de delação premiada, 259 acusados formalmente, R$38.1 bilhões em ressarcimentos, R$756.9 milhões em repatriação. Até o fim desse texto foram 120 condenações, contabilizando 1257 anos, 2 meses e 1 dia de pena.(dados do MPF)

mi_25755695003781495

Sérgio Moro posando para a capa da Isto É.

O homem do ano possui números exorbitantes nas suas costas, mas a que custo?

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E A QUESTÃO DO ENEM

Enquanto vos escrevo, possivelmente mais de oito milhões de jovens estão agora – 16h – sentados em suas apertadas cadeiras Brasil afora dissertando sobre Os Caminhos para combater a intolerância religiosa no país, o tema da redação desse ano que, cá entre nós, foi desenvolvido a dedo pelos educadores que prepararam a prova. Para experimentar algo mais didático, irei separar esse texto em três partes: uma introdução, um comentário sobre a redação em si e um comentário sobre a realidade no país. Elas poderão ser lidas da maneira que você, leitor, bem desejar.

I – Os problemas da intolerância religiosa no Brasil

É perceptível hodiernamente no país uma manutenção nos números absurdos de casos de intolerância religiosa no Brasil, são casos e números preocupantes, visto que, de certo modo, vivemos num país laico e que em tese deveria acolher todas as religiões – e os não religiosos -, a prática nega isso. Os impasses sociais que causam as ações de intolerância religiosa vêm de certa forma demonstrando como nosso sistema de democracia social é ineficiente, Pierre Bourdieu já argumentava que não é possível haver democracia sem um contra-poder crítico, falta isso aos cidadãos brasileiros, isso e entender que democracia é muito mais do que a decisão da maioria, pois esta não pode infringir quaisquer direitos legais de outras minorias, democracia é estar de acordo com as regras do jogo e não com os conteúdos.

A intolerância religiosa aparece nesse cenário quando vemos as regras sendo quebradas pela discordância dos conteúdos, desde que existem religiões existe intolerância religiosa, mas não podemos nos prender ao modo arcaico a fim de uma satisfação saudosista – quase sexual – de que “a minha religião venceu a sua” e nos colocarmos em pedestais, hierarquizando a importância das religiões, afinal, dentro mesmo de várias religiões há a intolerância religiosa: sunitas e xiitas, católicos e protestantes… O ponto crucial que gera a intolerância religiosa é a falta de razão democrática. Dirá o senso comum que lhes falta amor, porém amor não pode ser intrinsicamente ligado com a razão, visto que o amor também é cego e possui seus defeitos, a razão, por mais inalcançável aos modos hodiernos que seja será mais democrática que o amor. Eu não preciso amar quem discorda de mim, eu preciso respeitar.

II – A redação do ENEM e o “esquerdismo”

Não bastam as reafirmantes históricas do conservadorismo brasileiro em se oporem a todos os avanços progressistas, majoritariamente oriundos de pensamentos de esquerda, o reacionário não consegue enxergar a quebra nos padrões democráticos que ele sugere a cada ato que anda na direção oposta ou paralela ao ato progressista, isto é, mesmo se for bom para o povo, o conservador será contra pois a ideia veio “da esquerda”.

O mais interessante nessa análise é ver como, na realidade, esse pensamento reacionário – que não é de hoje – esbarra em todas as suas próprias falácias e àquelas que eles acusam a famigerada “esquerda” de proferir. Dentro dos ideais de Hirschman¹, poderíamos apontar as três teses intransigentes dos conservadores afim de barrar as tentativas progressistas de combata à intolerância religiosa.

A grosso modo: dentro da tese da perversidade, vemos que os argumentos dos conservadores são de que as tentativas de uma maior democratização dentro da linha do respeito à religião tornará as pessoas mais intolerantes ao invés de melhorá-las. Dentro da tese da futilidade, observamos o argumento que essas leis de incentivo a não-intolerância religiosa são em vão, visto que o sistema brasileiro é um sistema hegemonicamente cristão e que o Brasil é um país laico pero no mucho. Já dentro da tese da ameaça, observamos como os argumentos se estruturam afim de indicar uma perda de conquistas das outras religiões e do próprio ateísmo no país caso as mudanças em prol do combate a intolerância religiosa se estabeleçam.

Tendo em vista essa linha argumentativa, não é atoa que borbulham/irão borbulhar comentários reacionários do tipo “tive que ‘esquerdar’ para fazer uma boa redação”, infelizmente para o senso comum nacional os direitos humanos são coisa de esquerdista. Ano passado foi a mesma coisa com a redação sobre a violência contra a mulher e o mesmo tipo de indagação oriunda do conservadorismo, não lhes passa pela cabeça que os direitos humanos são e ponto, eles não são “de direita” ou “de esquerda”, eles atendem as necessidades do ser humano, independente de etnia, gênero ou preferência religiosa. Não aguardem menos – infelizmente – do conservadorismo nas próximas semanas e daqueles que dissertaram na prova do ENEM, o discurso sempre parte de um princípio único que é a manutenção dos privilégios daquilo que gosto de me referir como Elite Branca (leia o texto aqui), um pensamento que pode ser adotado por quaisquer ser humano independente de classe ou não. Quando a visão mais clara é que seus privilégios estão sendo perdidos, o desejo reacionário salta na pele e a pessoa se vê em cheque, não sabe se seu movimento será benéfico ou não e para que parcela da sociedade.

O ENEM acertou e muito com esse tema, aguardemos para saber o que os jovens dissertaram.

III – O Brasil e a intolerância religiosa

Nosso país registra milhares de casos de intolerância religiosa por ano e esse número oscila dentro de uma moda não muito animadora. Vimos nesse ano que a religião e a política estão num abraço tão forte que conseguiram ajudar a embaralhar ainda mais as prerrogativas do golpe: “por Deus e pela minha família, eu voto SIM!”. E não só dentro do cenário político propriamente dito, mas também pela vida social e turbulenta que principalmente os centros contemporâneos e grandes capitais viveram até a consolidação do golpe. Discussões, protestos, nervos à flor da pele, tudo isso girando em torno de figurões que de alguma forma têm seu rabo preso com religiosos.

Vimos a ascensão de figuras como Nando Moura e o resgate de outras como Malafaia, Pe. Paulo Ricardo e Olavo de Carvalho e seus discursos intransigentes, não atoa esses discursos existem e se aplicam na sociedade, eles cativam um público despreparado e desesperado, eles são “fáceis”, “engolíveis”, suas premissas agradam o povo e o senso comum. Essa realidade mostra como a comunidade não está preparada para esse debate, mas infelizmente assim mesmo ele precisa ser feito, pois não podemos ficar esperando sentados que a sociedade se apazigue a respeito disso.

 

primeiramissa_portinari

“A primeira missa no Brasil” – Cândido Portinari. 1860

 

A busca pelo fim da intolerância religiosa não consegue ser alcançada se não passar pela fina peneira da guerra do pensamento lógico argumentativo e da razão, desbancar esses argumentos intransigentes e trazer o povo, dentro dessa base, para se indagar sobre os direitos humanos, independente de acharem que “é coisa de esquerdista”.

_____

Nota: ¹ – HIRSCHMAN, A. O. “A Retórica da Intransigência”, 1992.

EM DIA DE ELEIÇÃO TEM FERIADO SUSPEITO

13912759_1762041044034054_1602249000100368075_n

Já discorri sobre muitas hipocrisias e mazelas da sociedade brasileira em meus textos, são figuras publicas que, aqui e ali, demonstram uma série de ações dissimuladas e possuem uma certa blindagem, pois seus argumentos deveras intransigentes e falaciosos se espalham como o vírus Influenza no séc. XIX, podendo talvez serem mais fatais que o próprio vírus aqui utilizado de exemplo.

O país vive hoje problemas sérios, principalmente em nossa democracia frágil, abatida pelo golpe e esporrada por esses marginais. Começamos a criar imagens perigosas de salvadores da pátria, de messias, de bastiões… Não é atoa que hodiernamente veneramos com muito mais ardor Moros, Bolsonaros, Olavos na direita, ou Lulas, Genros, Willys na esquerda. Se apenas há democracia quando há o acordo entre as regras da discordância e a discordância dos conteúdos, sinto lhes dizer, mas o que temos hoje passa longe de uma democracia.

Nos é necessário relembrar um pouco dos últimos acontecimentos na política nacional para entendermos como e por que essas eleições podem ser as mais desastrosas de uma década e meia…

Após a eleição de Dilma em 2014 e do congresso mais conservador desde 1964 (cinquenta anos depois), uma onda que dividiu o país emergiu de seu longo sono de quase duas décadas. Alguns cientistas políticos afirmam não existir quaisquer coligação de um acordo que vinha a ser cumprido em 2014 e outros que o impeachment é um antigo plano que teve de ser adiado, pois atacar a supremacia de Lula não seria uma jogada inteligente da direita, a ideia era atacar quando o PT já estivesse totalmente entregue ao PMDB e com uma liderança fraca no executivo, Dilma foi a peça escolhida.

Para a crucificação do PT seria necessário agitar o povo, mas quem faria isso? A oposição propriamente dita? Os também corruptos tucanos? Não, todo um bem arquitetado conjunto de “novas caras”, com alguns peões e peças principais do tabuleiro, um jogo de xadrez muito bem jogado, por sinal (até agora). Era preciso encontrar um álibi, cunhou que Cunha foi o escolhido para a missão de estar a frente desse impeachment e depois descartado, para “servir de exemplo”. Mas também eram precisas forças que dialogassem com o povão, pois não é só da ideologia da classe média que vive a politicagem, o senso comum precisava ser abalado e foi aí que a imagem do MBL se tornou importante. Garotos, como esse autor que lhe escreve, de dezenove, vinte, vinte e dois anos de idade, que começaram a faculdade agora (ou a abandonaram, pois “sabiam mais que o professor”) precisavam ser as faces dessa nova onda reacionária. Mentalizei comigo por algum tempo que se Albert O. Hirschman estivesse vivo, faria uma reedição de seu livro A Retórica da Intransigência com alguns adendos de uma terceira onda que concluiria e exemplificaria ainda mais suas três teses (perversidade, futilidade e ameaça)… Se no século XVIII ele as aplica na revolução francesa, no XIX no sufrágio universal e no XX no welfare state, poderia muito bem aplicá-las no XXI ao processo de golpe no Brasil e demonstrar como ambos extremos de nossa política estupram nossa democracia, porém se me permitem (e se permitam) dizer: a direita ganha essa disputa de lavada. Logo, esses rostos juvenis foram os grandes percursores, via internet principalmente, dos movimentos e protestos que ocorreram e vêm ocorrendo no país desde 2014, protestos que se diziam “apartidários”, protestos “do povo de bem”, que reuniam tanto a direita liberal (MBL) quanto a direita conservadora (eleitores do Bolsonaro, por exemplo) no mesmo metro quadrado por uma causa: Fora PT!

A mídia dentro dessa minha digressão aqui nem precisa ser citada, pois é óbvia sua participação no golpe, porém a mídia pelo menos é honesta a certo ponto, já esses jovenzinhos…

Juro para você, leitor, de pés juntos, eu sabia desde o início do MBL que membros do movimento se candidatariam para cadeiras do legislativo em 2016, estava mais que claro. Me assusta o espanto de muitos da esquerda (ou mesmo da direita) que pensavam diferente, isso era quase como um jogo de cartas marcadas.

Para retratar bem essa crescente ascensão para transformar essas figuras “apartidárias” em membros do Hall da Hipocrisia da Política Nacional, vou usar o caso do nosso famigerado Stephen Brasileiro, também conhecido como Fernando Feriado, ou Holiday, para os íntimos.

Fernando Holiday, não uma, não duas vezes já citado nesse blog (e lhes garanto, em nenhuma para elogiar sua figura patética) lançou ontem sua candidatura a vereador na cidade de São Paulo (ou Tucanistão, se preferir) numa não surpreendente coligação PSDB-DEM. Essa notícia chegou para mim na manhã da quarta feira (18), enquanto dava umas boas risadas de pessoas patéticas que serão candidatas esse ano em várias partes do Brasil, de São Paulo a Paranapuã, os candidatos paulistas me assustam! Mas no caso de Fernando eu simplesmente olhei o post no Facebook e soltei um curto “I KNEW IT!”, pois a gente pode errar nas contas de matemática, mas não erra na lógica da política nacional, mais previsível do que o próprio golpe.

“Fernandinho então vai se candidatar pelo DEM”, pensei. Poxa, logo ele que sempre exprimiu-se contra a corrupção se afiliando a um dos partidos mais corruptos de todo o Brasil. logo ele, negro, gay, se afiliando a um partido que nunca votou por maioria por uma pauta desses dois movimentos sociais na Câmara. Ora, o que esse garoto está fazendo no DEM?!  [Caso tiver uma boa imaginação de um homem negro com descendência de italianos indignado, vocês estão agora me imaginando essa tarde, repetindo compulsoriamente a frase: “O DEM, bicho?! O D-E-M?!”] Muitas respostas sobre essa minha divagação depois passaram pela minha cabeça, mas a mais plausível com certeza é: O nível de sandice da Elite Branca e de uma outra boa maioria da classe média paulistana está tão alto que se Holiday tivesse se filiado ao PSC de Feliciano “o estuprador” e Bolsonaro ~insira algum adjetivo dos milhares que possam ser dados a esse verme aqui~, não faria diferença alguma, o que importa é sua campanha. Bom mesmo saiu Dória (PSDB) na jogada, pois terá um dos líderes da hashtag fora Dilma fazendo campanha para ele. A meta? Tirar Haddad da prefeitura e competir as cadeiras da Câmara com Suplicy. O Tucanistão sempre tem uma carta na manga.

Brincadeiras e analogias à parte, é muito preocupante mesmo o estado de transe que vive a sociedade paulistana, pois os que não enxergam o tamanho da hipocrisia que é a candidatura de Holiday são aqueles que talvez façam o trabalho sujo de dar-lhe uma cadeira na casa do povo, ajudando mais um pouco a trazer à política o reacionarismo, os discursos intransigentes e a politicagem que deveria ser obsoleta nesse país, de volta à tona, com tudo e apagar todo o rastro de tentativas progressistas de melhorar nossa situação.

Não voto na cidade de São Paulo, mas pode ter certeza que em minha cidade algum membro do MBL tentará uma “boquinha”… Mentes vazias não faltam para dar-lhes alguns votos e, com certeza, se arrependerão como se arrependerão de ter ido com Fernando Holiday e companhia às ruas pedir o impeachment.

BEM VINDOS À NOVA ESFERA DO CAOS

“Eu sou doutor em ciência política e mesmo assim não faço a mínima ideia do que está acontecendo. Opinem à vontade” – Li num tweet. Risos.
black-hole-hawking_1024
Estamos passando pelo olho do furacão. Será? Com mais um reviravolta na política naional parece que atingimos aquele estágio em que as coisas começam a não mais fazer sentido, a não mais criarem nexos umas com as outras. Meros espectadores, é o que somos.
E o Cunha? O senhor do caos se viu traído, arrebatou seus aliados corruptos da Câmara e trçou um novo trajeto – quem com ferro fere, com ferro será ferido, já dizia o ditado -, este que não inclui nem DEM, nem PSDB muito menos MBL… Poxa, Kataguiri, você virou a casaca cedo demais, e agora choraminga as cucunhas no twitter, sem moral alguma e criando uma onda ainda maior de desinformação do povo prasileiro, parabéns, você consegue ser tão execrável quanto o PIG. A respeito do famigerado, posso apenas dizer: se é isso que vocês procuram, hão de conseguir!
A desinfomação está gritante e nítida de tal maneira que podemos resumir a mídia nativa em uma frase: “Os caras não tão nem mais tentando esconder”. Esdrúxula e maldosa, vêm se pondo como um dos piores meios de informação do país, mas fazer o quê? Se do outro lado temos a internet… o facebook (pff), o twitter (pff), o You Tube (pff) – salvo poucos navegantes.
O Senado já avisou que manterá a votação para quarta feira, o que deverá judicializar novamente o ocorrido de hoje que foi, por momento, um respiro em uma São Paulo no horário de pico. Crise institucional como nunca antes vista desde as tensões pré abril de 64, acrescido da oligarquia rentista empresarial jurando que irá revogar cada direito social existente.
Imagino eu, tendo que explicar as próximas gerações o que estou presenciando no auge da minha vida como estudante. Loucura, simplesmente. Isso é o caos. Caros amigos estudantes de história e futuros escritores dos livros: como faz? como farão? Como não enlouquecer perante a uma situação que para um todo soa como a desordem total?
Espero que as massas de manobra estejam vendo o resultado da presepada que é não respeitar a Constituição.
Mas não se enganem… há ordem no Caos, há espaço depois do buraco negro.

A ASCENÇÃO DA IGNORÂNCIA

E o golpe aconteceu, fiquei essas semanas matutando com meus botões trezentas-e-lá-vai-cacetada vezes como iria arquitetar meu artigo de opinião sobre o assunto – até porque não costumava deixar passar em branco um episódio tão brusco como esse no blog fazia muito tempo – e como levaria essa opinião para a casa do meu ínfimo grupo de leitores assíduos que, pressuponho que assim como eu, estão até agora perplexos. Logo então decidi por minha cabeça no lugar, acalmar os ânimos e conversar com meus colegas e ajudantes da página a melhor maneira de, não informar-lhes até porque já se passou um certo tempo, mas, expressar um ponto de vista que difere um pouco da mesmice dos jornalões.
Penso até em começar pelos famigerados, por que não? Me aproprio da frase do sr. Massimo D’Alema, ex-primeiro-ministro da Itália, que diz: “Eu olho para os jornais brasileiros e vejo apenas uma incessante propaganda, sem qualquer tipo de ética profissional”. Os arquitetos do golpe, as forças das Elites que nós não vimos estampando a cara do movimento #ForaDilma, venceram uma etapa importante de emburrecimento da sociedade. A classe média abastada e lotada de “isentões” não consegue nem mais levar seu discurso asqueroso de “é só desligar a TV e fingir que nada acontece” para frente, visto que seus lacaios são sedentos por notícias sensacionalistas e imundices ideológicas propagadas por ambos os lados, mas explícitas e completas de maucaratismo dentro do PIG.
É incoerente acreditar que você consegue se isentar de um problema que atinge a todos de um modo tão ativo que me lembra um pouco os surtos de dengue (como se não fosse problema seu só porque no seu condomínio as pessoas não deixam água parada). Essa parcela da elite e da classe média compõe um pessoal deveras culto, porém prefere a ignorância ao assunto, acreditando que os três poderes corrompidos de nossa democracia ainda têm algum valor. Lhes digo: olhe para a imagem abaixo do texto e responda-me se é possível confiar nos guardiões da Constituição. Nunca senti um desgosto tão grande como eu sinto de quem, por vontade própria, ousa dizer que dando tempo ao tempo a lei irá se cumprir (bem que eu queria, caros, mas não é assim que a banda toca). Deploráveis suas atitudes.
Se os notórios “isentões” possuem uma parcela grande de culpa pelo emburrecimento da sociedade, a outra parcela vem é claro de todo àquele imbecil coletivo que consome os meios de comunicação do PIG, alguns na maior inocência outros na maior cara de pau. Me recordo de uma conversa que tive com dois colegas na faculdade, onde, com um enorme desgosto no falar, me referia aos jornais e revistas do PIG: “São nojentos! Mau escritos, mau estruturados, editoriais de baixo nível, posso até afirmar que a parte menos pior são as colunas, até mesmo dos analfabetos políticos… céus, como são feios nossos jornais!”. Quem os lê e porquê os lê? Ora, até uma real democratização da mídia esse é o único modo do povão estar minimamente informado sobre os três pilares dos assuntos no Brasil: Política, Futebol e Religião. Sim, esses três, pois para Economia e descoberta científica ninguém mais liga… infelizmente.
Porém, o processo de emburrecimento não para por aí, existem fatores mais intrínsecos do que somente os externos ao proprio ser que o deixarão a mercê dos líderes das elites, caso contrário o fraco argumentos dos “isentões” faria todo o sentido. Existe um fator necessariamente pessoal de cada um que é sua capacidade cognitiva de separar as ideias, isto é, independente de uma classe intelectual, cada um possui um discernimento sobre aquilo que lhe é enfiado goela abaixo. Infelizmente vemos grupos a mercê desse método a todo momento. Entenda-me que não devemos culpá-los, necessariamente, visto que mesmo sendo algo pessoal, há uma enorme pressão social para tal grupo e, como um movimento condicionado, seu aprendizado (seja ele de qualidade ou não) é o que vai formar sua capacidade de entender e discernir o que está absorvendo de informações. Com esse grupo é necessários termos muito cuidado, até porque nós, providos desta capacidade não podemos bancar os superiores, visto a fragilidade ética do grupo em questão. O mais importante ao meu ver é ensinar as regras da democracia para tal grupo, perante o mantra supremo de um debate ideológico: “Eu não quero que pense como eu, só quero que pense”.
O processo de emburrecimento brasileiro é muito mais complexo do que apenas os elementos supracitados, porém estes são os essenciais e os que diferem um politizado de um analfabeto político. As informações brutas não existem mais em nossa mídia – e quando aparecem de relance, são sempre acompanhadas por uma opinião do jornalista ou repórter que as apresenta. O que se deve fazer é ponderar de modo racional, à medida que a ignorância do senso comum se diminua e ele se torne mais crítico. José Eduardo Cardozo, advogado da presidenta Dilma no processo de Impeachment já dizia “A prática de leitura no nosso país não é incentivada”, entenda “ler” como um exercício de conhecimento e de aprimoração do discernimento de conteúdos, isto é, uma atividade de destrinchar os textos que você tem em mãos. Desafio o leitor a destrinchar as palavras deste que vos escreve, uma leitura mais atenta dos textos fará que sua capacidade cognitiva melhore de maneira exuberante, não obstante, ainda condiciona sua atenção a um nível superior e partes que antes eram despercebidas passam a ser peças importantes para a compreensão de textos. A desonestidade intelectual é uma escolha. Apagar o sentido original das palavras é um excelente meio de dominar as massas, por isso, cuidado ao se referir à democracia, principalmente, palavra essa que foi estuprada durante anos e hodiernamente acreditam os tolos que o que está ocorrendo no país é um processo democrático. Democracia é estar de acordo com as regras da discordância e não de acordo com os conteúdos.

stf-ministros-cunha
“Se permita a aprender, criatura!”, seria com certeza o auge de minha ópera-buffa, cuja personagem incrementaria ares de superior, mas sem deslegitimizar a outra… devaneios.