A NECESSIDADE DE DOCUMENTARISTAS

Quando Simon Kilmurry escreveu para o The Hollywood Reporter em fevereiro desse ano sobre como nunca antes os documentários foram tão importantes para o cinema e a construção crítica de uma sociedade eu não botei fé, até que, com a finalização do meu documentário, “Lentes entre a gente” (2017), comecei  a entender como o retrato nu e cru sobre o cotidiano das pessoas mexia com uma parte de mim e que essa parte era a minha vontade de mostrar ao mundo algo relevante, nem que fosse para uma parcela não tão relevante assim da sociedade, mas era. E com certeza esse movimento político, por assim dizer, dos documentaristas como Raoul Pack, diretor do indicado ao Oscar “Eu não sou seu negro”, fez reafirmar os argumentos de Kilmurry: “Precisamos urgentemente de histórias reais de pessoas reais e suas experiências”.
“Mas por quê?”, provavelmente muitos se perguntam, visto que a maior parcela que vai ao cinema, não vai para ver documentários, assim como a maior parcela que lê livros, não lê biografias ou etnografias. O mais importante a se pensar aqui é o custo benefício de um documentário, pois, sendo um trabalho levado a sério, os retratos documentais – principalmente em vídeo – podem fazer uma diferença ridiculamente grande no impacto com o público. As pessoas sempre foram interessadas em saber das outras, o problema é que a indústria não achou uma maneira, um “timming” para sustentar essas produções.
Os documentários têm sim um público alvo quase todas as vezes, porém aquela parcela que assiste e que não se encaixa nesse público alvo também é afetada pelo documentário tão quão a outra. É um ponto positivo dos documentários, pois você dificilmente sai da sala do cinema a mesma pessoa, são histórias que mexem com a gente de certa forma e essas histórias precisam serem contadas e precisam de quem as conte.
Passei a maioria do tempo enquanto realizava meu documentário me perguntando “será que vão assistir?” “por que iriam ver?” “pra quem serve esse filme?”. São perguntas que mais tarde eu entendi que motivam o documentarista a seguir em frente com seu trabalho, pois quando se põe uma ideia na cabeça de contar uma história, ela precisa se concretizar num projeto audiovisual e para isso é necessário que uma pessoa sempre te apoie: você mesmo;
Não que o grupo de pessoas que trabalha contigo deva ser esquecido, mas quando mergulhamos nessa atividade tão revigorante, de aprender, mais que tudo, é preciso provar todo tempo a si mesmo que você teve uma boa ideia, por que senão, pare. Pare, pois é desgastante aos outros individuos qualquer sinal de esforço absurdo a uma atividade que os inclui e que você não quer mais. Observei muito isso em antropologia, pois aqueles homens e mulheres se doavam ao máximo para desenvolver métodos de estudo de povos sem que isso os afetasse, e após o projeto finalizado, o trabalho de deixar aquela sociedade intacta – o que é impossível, mas achamos que funciona.
O trabalho do documentarista deve ser intenso, pois são necessários rearranjos a todo momento, pois temos que ir entendendo o “modus operandi” da comunidade que estamos, não podemos simplesmente chegar lá pra gravar e ordená-los a algo, já existia uma conduta alí. Me lembr de Bateson quando escreveu “Naven”, seu mais famoso livro, dizendo – a grosso modo – que é importante participar da comunidade e não agir como um ser externo, diminuir-se às relações de poder daquele povo para assim entender o por que as coisas são como são e, o mais importante, não esperar que algo mirabolante ocorra todo santo dia na comunidade, pois eles não são um circo para você assistir, muitas vezes as cerimônias ocorrem e você nem percebe, pois para eles soa como uma “naturalidade” e para você também. Caçar, separar a colheita, cozinhar, tudo isso podem ser rituais, e nós, ingênuos, esperando uma grande cerimônia à lua cheia…
Existem inúmeras formas de produzir um documentário e a maioria delas consiste em buscar algo que ainda não foi dito pela voz de alguém que precisa dizer. O documentarista então é o intermediário entre aqueles que precisam ser ouvidos e aqueles que precisam ouvir, é ele quem dá voz a pessoas que passam batidas pela nossa sociedade. Por mais que sejam famosas, como James Baldwin, muitas vezes essas figuras escondem um lado que só pode ser entendido se ligarmos todos os pontos.
Foi o que eu senti quando saí da sessão de “Eu não sou seu negro”, pois Baldwin queria contar algo para nós, ele queria demonstrar a historia das lutas por direitos étnico-raciais nos EUA e escolheu contar a partir de três importantíssimas figuras, seus amigos “Martin Luther King Jr”, “Malcom X” e “Medgar Evers”, seus colegas, pessoas com quem Baldwin já tomou um café ou dois, era próximo o bastante para entender a importância desses três homens conflituosos entre si, mas que desejavam algo maior em comum: A libertação do povo preto.
Sendo um documentário póstumo, Peck selecionou trechos de entrevistas e dos escritos inacabados de Baldwin para a síntese de toda argumentação de Baldwin sobre o resultado da luta negra até aqui e como ela deveria seguir acontecendo e o que ela desencadeou. “Eu não sou seu negro” reflete a história dos EUA e como ela foi cruel com o povo preto, é um documentário necessário para abrir mais uma vez a ferida da sociedade, pois o simples fato da luta ainda existir incessantemente já é um sintoma de que o problema está longe de ser resolvido.
Documentaristas como Pack e contadores de historia como Baldwin devem servir de exemplo para uma nova geração de atuantes na área, pois se você possui uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, meu caro/minha cara, faça acontecer.

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