BRAGA E O CÂNCER SILENCIOSO DA SOCIEDADE BRASILEIRA

“Só pra vocês terem uma ideia, em 1996, a população carcerária Brasileira era de 148mil presos, hoje [2006], dez anos depois, a população carcerária é de mais de 400mil presos. Eu percebi que a população carcerária brasileira dobra em média a cada oito anos, enquanto que a população brasileira dobra a cada cinquenta anos. Se continuarmos com essa lógica, em 2081, a população brasileira será de 570mi, enquanto que a população carcerária brasileira será de 510mi, ou seja, 90% dos brasileiros vão estar na cadeia. Mas não se apavorem! Em 2084 todos os brasileiros poderão desfrutar de uma cela em um complexo como o de Bangu” (Tropa de Elite 2, José Padilha. 2010)
Se então o número de policiais aumentou, por que a estatística não apontou que o número de presos diminuiu? Por que essa conta infâme não bate?
Muito vem sendo dito há anos por sociólogos, membros de ONGs e outros especialistas na área, à exaustão: no Brasil. criminaliza-se a cor e a classe;
É com uma enorme tristeza no coração que digo que estou de acordo com essa frase, cruel e sábia, antiga e ao mesmo tempo muito atual sobre a situação de favelados, negros e negras no país. Com o julgamento do caso de Rafael Braga, mais um capítulo, mais um número na estatística que aponta o quão medíocre é essa guerra às drogas, o quão rasa, corruptível e hipócrita é a sociedade média brasileira e seu pensamento pautado numa Elite Branca e racista.
Caso você tenha se enfiado numa caverna esses últimos anos e não tenha visto que o único preso nas manifestações de 2013 foi um catador de latinhas da Vila Cruzeiro, abordado mais uma vez pela polícia de forma truculenta, mesmo sem reação, forçado a portar cocaína dentro da viatura e indiciado por crimes que não cometeu, clique aqui.
Com a sentença em mãos e um lugar em Bangu, Braga agora aguarda uma justiça quase divina ou irá amargurar onze anos uma decisão judicial pautada por delações dúbias, argumentos dos policiais que o prenderam que não são iguais e um silêncio sepulcral da maioria da sociedade brasileira. “Ver pobre, preso, morto, já é cultural”, como bem disseram os Racionais MCs.
Como então lutar pela disseminação de mais um capítulo da brutalidade do racismo institucional no país e atingir as pessoas? Como convencer uma justiça racista que foi uma sentença aplicada sem quaisquer resquício de verdade? Como mostrar que o único depoimento que bateu esses anos todos foi o do próprio Rafael, enquanto os policiais que o prenderam contaram versões diferentes do ocorrido? “Mais um pra servir de exemplo”?
Esse é o país que vivemos, senhoras e senhores, onde o negro sai de casa sem saber se vai voltar, onde a maioria nos presídios estão lá sem julgamento justo e/ou acusados de “tráfico” (6g de maconha ou pó, risos), ajudando na superlotações desses presídios que não servem de nada para uma reabilitação social justa e digna.
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Rafael Braga, mais um nego drama.

Torço para que Rafael Braga, já uma estatística do Estado burguês racista, não se torne mais um número dentre os presos que não conseguem plena “reabilitação social” após cumprir pena; Torço que daqui a menos de onze anos ele compareça a cada palestra para denunciar os abusos que sofreu pela Polícia Militar e choque cada filho de cada um que não se importou com esse triste e alarmante número social no Brasil: 250.000
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A NECESSIDADE DE DOCUMENTARISTAS

Quando Simon Kilmurry escreveu para o The Hollywood Reporter em fevereiro desse ano sobre como nunca antes os documentários foram tão importantes para o cinema e a construção crítica de uma sociedade eu não botei fé, até que, com a finalização do meu documentário, “Lentes entre a gente” (2017), comecei  a entender como o retrato nu e cru sobre o cotidiano das pessoas mexia com uma parte de mim e que essa parte era a minha vontade de mostrar ao mundo algo relevante, nem que fosse para uma parcela não tão relevante assim da sociedade, mas era. E com certeza esse movimento político, por assim dizer, dos documentaristas como Raoul Pack, diretor do indicado ao Oscar “Eu não sou seu negro”, fez reafirmar os argumentos de Kilmurry: “Precisamos urgentemente de histórias reais de pessoas reais e suas experiências”.
“Mas por quê?”, provavelmente muitos se perguntam, visto que a maior parcela que vai ao cinema, não vai para ver documentários, assim como a maior parcela que lê livros, não lê biografias ou etnografias. O mais importante a se pensar aqui é o custo benefício de um documentário, pois, sendo um trabalho levado a sério, os retratos documentais – principalmente em vídeo – podem fazer uma diferença ridiculamente grande no impacto com o público. As pessoas sempre foram interessadas em saber das outras, o problema é que a indústria não achou uma maneira, um “timming” para sustentar essas produções.
Os documentários têm sim um público alvo quase todas as vezes, porém aquela parcela que assiste e que não se encaixa nesse público alvo também é afetada pelo documentário tão quão a outra. É um ponto positivo dos documentários, pois você dificilmente sai da sala do cinema a mesma pessoa, são histórias que mexem com a gente de certa forma e essas histórias precisam serem contadas e precisam de quem as conte.
Passei a maioria do tempo enquanto realizava meu documentário me perguntando “será que vão assistir?” “por que iriam ver?” “pra quem serve esse filme?”. São perguntas que mais tarde eu entendi que motivam o documentarista a seguir em frente com seu trabalho, pois quando se põe uma ideia na cabeça de contar uma história, ela precisa se concretizar num projeto audiovisual e para isso é necessário que uma pessoa sempre te apoie: você mesmo;
Não que o grupo de pessoas que trabalha contigo deva ser esquecido, mas quando mergulhamos nessa atividade tão revigorante, de aprender, mais que tudo, é preciso provar todo tempo a si mesmo que você teve uma boa ideia, por que senão, pare. Pare, pois é desgastante aos outros individuos qualquer sinal de esforço absurdo a uma atividade que os inclui e que você não quer mais. Observei muito isso em antropologia, pois aqueles homens e mulheres se doavam ao máximo para desenvolver métodos de estudo de povos sem que isso os afetasse, e após o projeto finalizado, o trabalho de deixar aquela sociedade intacta – o que é impossível, mas achamos que funciona.
O trabalho do documentarista deve ser intenso, pois são necessários rearranjos a todo momento, pois temos que ir entendendo o “modus operandi” da comunidade que estamos, não podemos simplesmente chegar lá pra gravar e ordená-los a algo, já existia uma conduta alí. Me lembr de Bateson quando escreveu “Naven”, seu mais famoso livro, dizendo – a grosso modo – que é importante participar da comunidade e não agir como um ser externo, diminuir-se às relações de poder daquele povo para assim entender o por que as coisas são como são e, o mais importante, não esperar que algo mirabolante ocorra todo santo dia na comunidade, pois eles não são um circo para você assistir, muitas vezes as cerimônias ocorrem e você nem percebe, pois para eles soa como uma “naturalidade” e para você também. Caçar, separar a colheita, cozinhar, tudo isso podem ser rituais, e nós, ingênuos, esperando uma grande cerimônia à lua cheia…
Existem inúmeras formas de produzir um documentário e a maioria delas consiste em buscar algo que ainda não foi dito pela voz de alguém que precisa dizer. O documentarista então é o intermediário entre aqueles que precisam ser ouvidos e aqueles que precisam ouvir, é ele quem dá voz a pessoas que passam batidas pela nossa sociedade. Por mais que sejam famosas, como James Baldwin, muitas vezes essas figuras escondem um lado que só pode ser entendido se ligarmos todos os pontos.
Foi o que eu senti quando saí da sessão de “Eu não sou seu negro”, pois Baldwin queria contar algo para nós, ele queria demonstrar a historia das lutas por direitos étnico-raciais nos EUA e escolheu contar a partir de três importantíssimas figuras, seus amigos “Martin Luther King Jr”, “Malcom X” e “Medgar Evers”, seus colegas, pessoas com quem Baldwin já tomou um café ou dois, era próximo o bastante para entender a importância desses três homens conflituosos entre si, mas que desejavam algo maior em comum: A libertação do povo preto.
Sendo um documentário póstumo, Peck selecionou trechos de entrevistas e dos escritos inacabados de Baldwin para a síntese de toda argumentação de Baldwin sobre o resultado da luta negra até aqui e como ela deveria seguir acontecendo e o que ela desencadeou. “Eu não sou seu negro” reflete a história dos EUA e como ela foi cruel com o povo preto, é um documentário necessário para abrir mais uma vez a ferida da sociedade, pois o simples fato da luta ainda existir incessantemente já é um sintoma de que o problema está longe de ser resolvido.
Documentaristas como Pack e contadores de historia como Baldwin devem servir de exemplo para uma nova geração de atuantes na área, pois se você possui uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, meu caro/minha cara, faça acontecer.

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A CONSCIÊNCIA NEGRA: COTAS

Seja negro, branco, pardo, papelão molhado, amarelo, rosa, roxo, cor de burro quando foge, todos temos uma identidade que não pode ser mudada. Michael Jackson tentou e falhou, nunca busque ser quem não é. Isso vale para tudo e todos.

Hoje (20/11) comemora-se o Dia da Consciência Negra, um feriado implantado pelo simples fato de não conseguirmos sanar nossos preconceitos. NÃO, eu não estou dizendo que racismo se cura com ignorância, mas que o fato de ignorarmos os negros por tanto tempo é o que gerou o racismo. Primeiro a sociedade “mais desenvolvida” (vulgo, europeus) simplesmente negou a existência de negros, quando descobriu, utilizaram de sua tecnologia e “pensamento superior” para convencer a eles próprios que os negros eram uma raça inferior… De lá pra cá a coisa só degringolou: Ocupações, tráfico de negros, escravidão, segregação. Tudo que podia parecer o fim tinha como piorar. Então uma parte da população começou a se tocar que os direitos humanos deveriam ser bem mais amplos e não só para o homem branco, cristão e heterossexual. Surgiram inúmeras leis e com elas os movimentos negros se fortaleceram, ganharam voz e hoje em dia tem papel fundamental no funcionamento da sociedade, conscientizando que os direitos adquiridos não podem ser esquecidos ou violados.

Casos de racismo explicito hoje em dia são mais difíceis de se ver. Preste atenção, eu disse “racismo explícito”, numa sociedade como a de hoje, onde tudo gira tão rápido, não sabemos mais o que é racismo e simplesmente fazemos coisas que são “naturais” sem perceber que isso também é racismo. E para deixar uma coisa clara: isso serve para todas as etnias!

Um dos casos desse racismo maquiado que existe hoje que mais me incomoda são as cotas e o rebu que isso dá na sociedade. Desde a lei implantada onde a faculdade poderia escolher implantar ou não cotas para negros e indígenas nos cursos, as opiniões se dividiram nos que eram contra e a favor. Porém a taxação imposta sobre essa decisão feriu algumas partes que muitas vezes não conseguiam se expressar bem: se você é a favor, você é para seus iguais um defensor da igualdade e para seus diferentes um influenciador do racismo. Se você é contra, você é um defensor da igualdade para seus iguais e para seus diferentes um influenciador do racismo.

O que esses taxadores esquecem é que existem opiniões divergentes, não é tudo preto no branco como parece ser… E é por isso que vou explicar porque sou contra as cotas nas universidades, porém aceito que elas existam:

Primeiramente temos que explicar para que serve uma universidade e isso é fácil: formar acadêmicos e fazer pesquisas. Esse é o ponto principal, mas como o mundo capitalista exigiu um ensino superior para os melhores empregos, os moldes das universidades se modificaram e agora ela se tornou uma escola a mais, por isso que chamamos de curso superior. Essa exigência capitalista começou uma disputa por vagas em universidades nunca vista antes e é aí que o caldo começa a azedar.

Em segundo lugar preciso fazer meu comentário sobre meritocracia, que também é simples: a meritocracia no Brasil é hereditária. Para se ter um ensino meritocrático como o proposto pelas universidades é necessário que todos estejam no mesmo pé de igualdade (o que não acontece hoje), pois não podemos negar que não há metodo mais democrático que o vestibular para se inserir numa universidade, o aluno que se esforça passa, o que não se esforça fica… Seria lindo se não fosse utopia.

Em terceiro lugar precisam ser apontados o porque das cotas que hoje existem serem implantadas: considero um misto de compensação histórica com medo de repressão. As lutas do movimento negro estavam tão fortes que o governo precisava fazer algo, porém eles erraram brutalmente onde inserir essas propostas.

Dados os pontos principais, ainda falta concretizar mais minha opinião. Seguindo essa linha de raciocínio onde a universidade deve ser um lugar aonde a pessoa deve estar para aprender não o essencial, mas o adicional, porém o mercado de trabalho exige de nós um diploma muitas vezes e isso aumenta a competição por uma vaga, principalmente em universidades públicas. As cotas chegaram para conseguir aumentar o número de negros nas universidades e mais do que isso, o numero de negros conquistando cargos importantes no mercado de trabalho.

Isso não precisaria acontecer se a educação primária brasileira não fosse tão elitista e preconceituosa. As divergências mais duras ocorrem pois o pessoal que é contra as cotas acredita que essa inserção só aumenta o racismo, utilizando o pretexto do artigo 5º onde diz que todos somos iguais. O que esse tipo de gente esquece é que “todos somos iguais perante a lei, tratando os desiguais na medida de sua desigualdade”, o popular princípio da isonomia. Não é na cabeça de um adolescente que nunca viu um negro em sua sala de aula que você vai mudar isso, infelizmente, e socar essa condição pode aumentar ainda mais uma segregação entre brancos e negros universitários.

É nas crianças que o preconceito começa, em vez de o governo cobrar juros altíssimos nas escolas particulares, por que eles não incentivam um esquema de inclusão social desde o começo? Ou por que não tornam lei a PL 480/07 que obriga os deputados a colocarem seus filhos em escolas públicas, assim incentivando a melhoria do ensino? Muitas opções poderiam ser desenvolvidas para combater o racismo logo na infância e assim, com o passar do tempo não seriam mais necessárias as cotas nas universidades, pois todos estariam no mesmo pé de igualdade para então disputarem uma meritocracia justa. Até lá que as lutas dos movimentos continuem por igualdade e pelo fim do racismo, que não será amanhã nem depois, talvez nem estaremos vivos para ver.

MERITOCRACIA